sábado, 20 de abril de 2013

Ensaio sobre a Cegueira, José Saramago (Segunda parte)


Quando finalizados os bens para a permuta, o bando impôs que a comida fosse trocada pelo deleite sexual; o que causou a indignação da maioria das mulheres e do seu protesto contra tal prática. Há apenas uma que aceita de imediato a proposta dos bandidos, desde que tenha comida e cama. Os homens que partilhavam a camarata com elas, procuraram convencê-las a aceitar a dita troca. Nesse instante, há uma mulher que se volta para um homem e pergunta-lhe solenemente diante de todos: “E se eles em vez de mulheres quisessem homens para terem sexo? Seriam vocês capazes de aceitar?” O homem, muito espantado, respondeu que se fosse esse o caso aceitaria. Elas acalmaram--se, e rogadas lá foram seguindo os capatazes do grupo que as levaram até ao terceiro esquerdo do corredor, durante o caminho a mulher do médico espreita para dentro das camaratas dentro das quais haviam mulheres que gritavam cada vez que um homem lhes tocava, quando elas chegam à camarata o porteiro avisa de imediato a sua chegada. O chefe do bando escolheu aquela que mais lhe agradava para satisfazer a sua concupiscência, à medida que o tempo ia passando o cenário ia-se transformando em bacanal e de violência desenfreada em que as mulheres davam espasmos de dor, uma delas chega a morrer logo depois da orgia, no outro dia de manhã, em que todas voltavam para as suas camaratas com a comida. De manhã, voltam outra vez os mensageiros à procura de novas mulheres, pelo percurso, passam pela camarata da mulher do médico. Os três criticavam a mulher das insónias, desdenhavam-lhe o corpo, que o corpo dela não valia nada, um deles pergunta o que é feito dela; ao que a mulher do médico retruca em tom provocatório, com a intenção de lhes causar algum remorso, que ela não valia nada e, consequentemente, que a pergunta nem sequer merecia ser colocada.
Esta chantagem dos cegos malvados causa na mulher do médico o desejo de querer pôr cobro a tudo isto. Ela olha para a parede da sua camarata onde tinha pendurado a tesoura que encontrou na sua mala, pensando em usa-la como um punhal, agarra-a e vai até à camarata onde estavam os cegos malvados, procurando sempre passar despercebida no meio deles. Direcciona-se para o chefe dos bandidos que estava a ter relações sexuais, coloca-se atrás do chefe e aponta-lhe a tesoura ao pescoço no qual iria desferir o golpe mortal, o sangue esguicha e salpica a cara da mulher que prestava o serviço ao chefe do bando, a rapariga emite um grito com tal intensidade que põe todo o grupo em alvoroço. As mulheres entram em rodopio procurando uma saída do quarto; a mulher do médico agarra a dita mulher e tapa-lhe a boca para evitar que ela continue a gritar e para sair dali de forma segura, depois reúne as mulheres que ali se encontravam e leva-as em fila indiana até às outras camaratas. Atrás delas, à porta da camarata dos bandidos, estava o contabilista dando tiros para o tecto que gritou que as refeições iriam deixar de ser distribuídas, dando a entender que era ele agora quem dava as ordens.
A necessidade de alimento compele os cegos a magicar um plano para o conseguir. O primeiro a falar é o velho da venda preta que propõe que se devia denunciar a culpada pela morte do chefe do bando de malfeitores, talvez o bando dos bandidos os perdoasse e lhes entregassem comida; o segundo homem, o ajudante de farmácia, diz que todos se deviam unir para entrar à força na camarata dos bandidos; por último, o médico diz que todos deviam aguardar até à hora de entrega das refeições pelos militares e que não deviam atacar o bando por enquanto, porque estavam armados. Todos esperaram até à hora da refeição, contudo os militares nunca mais chegaram com a comida e ainda continuaram à espera, só depois de passadas algumas horas é que decidiram atuar. Os cegos organizam-se e planeiam a forma como devem entrar na camarata dos bandidos, armam-se com os ferros das camas, mandam a mulher do médico ir ver se os bandidos tinham barrado a entrada com as camas; a mulher do médico vai à camarata dos bandidos para verificar se estes tinham alguma coisa a tapar a entrada, e de facto a suspeita confirmou-se da pior forma, os bandidos tinham colocado duas filas de camas a tapar a entrada; volta novamente à camarata para contar aos companheiros o que tinha visto. Conta-lhes que não é possível entrar na camarata dos bandidos sem serem detetados, e de que as hipóteses de sair daquela camarata com vida eram escassas. Mesmo assim, os cegos tentam forçar a entrada, do interior da camarata saem dois disparos que acabam por levar a vida de dois homens, um deles farmacêutico. No desejo de entrar naquela camarata houve uma mulher que pensou que a melhor hipótese seria deitar fogo às camas com o intento de obrigar os bandidos a sair da sua toca, e assim fez, agarrou num isqueiro e foi até à entrada da camarata dos bandidos, começou por pegar fogo na parte lateral das camas. Um pensamento invadiu de imediato a cabeça da mulher: «e se os bandidos têm um balde e apagam o fogo», meteu-se debaixo das camas e passou o isqueiro a todo o comprimento das mesmas, mas depressa o fogo lambeu-lhe os cabelos e ela tornou-se numa pira. Dentro da camarata, os cegos malvados estavam em pânico que lhes era animado pelo cheiro a fumo e pelo calor estonteante. Sentem as labaredas a aproximar-se, começam a subir para cima dos móveis para conseguir alívio, mas acabam por servir de alimento às chamas. Aqueles que estavam no corredor à espera para lhes atacar, ouvem os uivos daqueles que ardiam, depressa entendem que têm de sair dali. Vão para o exterior do manicómio, ajudados pela mulher do médico. Já no exterior, a mulher do médico observa que os soldados já lá não estão para os vigiar; a mulher observa agora o manicómio a arder, era a única fonte de calor e de luz que rompia com aquela noite gélida, exausta senta-se no chão tal como todos os outros, aconchegados pelo calor proveniente do manicómio acabam por dormir. De manhã saem do perímetro de segurança que tinha sido montado pelos soldados, combinam para qual das casas é que devem ir. Chegam a acordo, a primeira casa para onde eles tencionam ir é da rapariga dos óculos escuros e a segunda é a casa do velho de venda preta, partindo daqui a restante ordem de casas a visitar: a da mulher do médico, a do rapazinho estrábico e a do primeiro cego. Apesar de tudo, como o velho da venda preta apenas tinha o quarto alugado e o rapazinho estrábico não se lembrava onde morava, limitaram-se, portanto, a seguir os restantes.
Dirigem-se para o centro da cidade e deparam-se com um cenário desolador, com casas e lojas pilhadas, com ruas sujas de tudo aquilo que se possa imaginar de nojento. As pessoas que estavam na rua procuravam desesperadamente algo que lhes possa encher o estômago. Vêem um grupo a sair de uma loja, a mulher do médico vai falar com alguém desse grupo; um dos elementos do dito grupo transmite-lhe que a doença se propagou de um grupo de pessoas para depois se estender a todo o país. Aqueles soldados que guardavam o manicómio foram os últimos a serem vitimados pelo «mal branco». Além disso, a cidade já não é abastecida com alimento e outros bens essenciais desde que a doença se alastrou. Desde modo, as pessoas sentido falta de alimento começaram a alimentar-se dos seus animais domésticos, depois começaram a alimentar-se dos cães vadios mas depressa estes aprenderam a evitar as pessoas, havia também grupos de cães raivosos que atacavam as pessoas. E ainda havia pessoas que se alimentavam de cadáveres, humanos ou não, tal como faziam os cães. Pelo motivo de escassez de alimento o grupo que estava no interior da loja decide ir à procura de alimento nas cidades mais próximas; despedem-se.
A mulher do médico e o resto do seu séquito entram dentro da loja de eletrodomésticos, ela diz-lhes que aguardem por ela no interior da loja enquanto vai buscar alimento. A mulher sai da loja e deambula pela cidade à procura de um supermercado ou de alguma loja que ainda tenha uma réstia de algo que se coma. Finalmente, chegada ao supermercado a mulher do médico vê, no interior da superfície comercial, os cegos a andarem por entre as prateleiras à procura de alimento, chegavam a derrubar estantes, a andar de gatas, enfim, tudo o que uma mistura de cegueira e fome lhes possa obrigar a fazer na busca desesperada por alimento. A mulher do médico deu rapidamente com o local onde os alimentos estavam armazenados, ou seja, a cave do supermercado, abriu a porta devagar, observou, foi buscar sacos e entrou para encher os sacos que tinha na mão com todos os alimentos e objetos que queria, comeu ainda um chouriço para recobrar forças para a sua empresa, depois de saciar a fome ela saiu da cave e fechou a porta, com a intenção de mais tarde ali voltar. Olhou para a saída do supermercado, procurou chegar até lá pé ante pé contornando os cegos; quando há um cego, que a meio do caminho, sente um bafo forte a chouriço e grita que alguém estava a comer chouriço; nisto, a mulher do médico mete as iguarias atrás das costas e lança-se numa correria em direção à porta de saída do supermercado. No caminho de regresso, passa por diversos cegos com a cara apontada para o céu e de boca aberta para receber a chuva, alguns com baldes e tachos para armazenar água; e por viaturas estacionadas de forma caótica. Enquanto caminha de regresso a casa, a mulher do médico procura saber por onde é que veio, começa a ficar cada vez mais desesperada pois acredita que se perdeu, senta-se e desata a chorar, nesse momento, um cão aproxima-se dela; ela afaga- -o e começa a lacrimejar para cima do animal. Para sua grande sorte, ela repara que há ali, à sua frente, um mapa da cidade; chegou-se para junto do mapa e procurou qual era a rua onde estava situada e a loja de electrodomésticos onde os seus amigos estavam. Seguiu pelo caminho que estava indicado no mapa até à loja, o cão limitou-se a segui-la para todo o lado.
Quando chegou ao estabelecimento, começa por distribuir comida ao grupo, narrou-lhes o que se tinha passado no supermercado, rindo-se todos do infortúnio do cego que tinha espetado o vidro no joelho, chegando a dar alguma comida que trazia no saco ao cão que devorou tudo o que ela lhe entregou. Depois do repasto, o grupo saiu da loja com o objetivo de procurar vestuário e calçado, após isto, seguiram para o apartamento da rapariga dos óculos escuros. Chegam ao prédio onde vivia a rapariga, a mulher do médico juntamente com a rapariga dos óculos escuros sobem ao segundo apartamento, mas não estava ninguém para abrir a porta. As duas procuram nos restantes apartamentos e nada, até que no primeiro piso encontram uma vizinha, que lhes abre a porta, denotando-se um cheiro putrefacto que vinha do interior do apartamento, a mulher põe as duas a par do que se passou com os pais e restantes vizinhos após terem levado a rapariga de óculos escuros para o manicómio abandonado, revelando-lhes que vivia da comida que estava armazenada dentro das casas e daquilo que o quintal dos fundos do prédio produzia. A vizinha (idosa e de cabelos desgrenhados) ofereceu passagem às duas para irem ao apartamento da rapariga dos óculos escuros pelas escadas de salvação, mas avisa-as de que já não existe comida nos restantes apartamentos, a mulher do médico responde-lhe que trazem comida, nessa altura, a velha, em troca do favor, pede-lhes alguma comida. As duas entram no apartamento, e o cheiro intensifica-se cada vez mais à medida que avançam no interior da habitação, atingindo o seu auge na cozinha onde estavam coelhos esfolados, além de restos de comida; saem pelos fundos e sobem ao apartamento da rapariga dos óculos escuros pelas escadas de salvação.
Entraram no apartamento da rapariga de óculos escuros pela porta das traseiras que se encontrava aberta, já a respetiva chave encontrava-se na posse da velha; mas, para grande felicidade das duas mulheres, as chaves da porta de entrada ainda estavam penduradas na fechadura, não sendo necessário pedir à velha para deixar passar todo o grupo, evitando dessa forma o seu mau humor. A mulher do médico foi chamar o grupo que era seguido pelo cão (chamado pelo narrador o cão das lágrimas), o barulho do tropel leva a vizinha do primeiro andar a abrir a porta e a perguntar quem vinha, a rapariga de óculos escuros responde-lhe que eram os restantes elementos do seu grupo, nesse momento, a velha relembra-lhes que lhe tinham de lhe dar de comida, e foi aí que o cão das lágrimas ladrou ferozmente à velha que se recolheu assustada com o cão. Assim que todos entraram dentro do apartamento, antes de jantarem, a rapariga de óculos escuros e a mulher do médico foram ao andar de baixo cumprir o compromisso; nessa altura a velha entrega a chave dos fundos à rapariga de óculos escuros. A seguir ao repasto, a rapariga de óculos escuros e a mulher do médico conversam, a primeira disse que tinha intenções de ficar no apartamento, já a segunda alerta-a para a competição pelo alimento com a vizinha de baixo além da hipótese de adquirir os hábitos da mesma, como comer carne crua e da casa parecer uma pocilga, mas a rapariga de óculos escuros encara isso como inevitável assim que se perdeu a visão e que sem este dom é como se estivesse morta. Nesse sentido, a mulher do médico diz-lhe que devido à cegueira os sentimentos tenham mudado, pois os sentimentos são construídos em grande parte pela visão; por este motivo, sugere-lhe que venha com o resto do grupo até à casa do médico.
Na manhã seguinte, trataram desde logo de satisfazer as suas necessidades fisiológicas e de higiene ao ar livre. Depois de todos estarem satisfeitos, foram para a mesa para decidir o que fazer, o que a mulher do médico propõe ao grupo é de que continuem a viver juntos, antes de saírem recomenda à rapariga de óculos escuros que deixe as chaves com a vizinha do primeiro andar em troca do favor entregava-lhe ainda mais alimento, posteriormente o grupo seguiu caminho para a casa do médico. A mulher do médico ia à frente do grupo, quando saem do prédio colocam-se ao lado uns dos outros e seguem de mãos dadas e entrançados com uma tira de pano até à casa do médico. Pelo caminho por um luxuoso bairro, cuja riqueza se espelha nas viaturas que estão estacionadas diante das vivendas, uma delas uma limousine estacionada à porta de um banco. A pessoa a quem servia, o presidente do conselho de administração, que ficou preso no elevador juntamente com o ascensor por causa de uma falha de energia provocada pela paragem do gerador que ainda não era automático, que por isso necessitava dos eletricistas para o manter a funcionar, mas que por motivos do mal branco não o puderam fazer.
   
Fernando de Almeida