quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Sobre o suicídio, Karl Marx

A obra Sobre o suicídio, foi concebida quando Marx tinha 28 anos, tendo como fonte o capítulo Du suicide et ses causes” de Jacques Peuchet, que exerceu o cargo de director dos Arquivos de Paris durante o período da Restauração. Mas isto, não faz de Marx o co-autor da obra, pois além da tradução e selecção, Marx ainda modificou os textos e introduziu comentários sem fazer qualquer demarcação dos excertos que retirou de Peuchet; resultando num texto harmonioso e de leitura aprazível.
No entanto, esta composição literária não ambiciona tomar o lugar de texto científico, procurando antes, através do relato de diversos incidentes ocorridos na época da Restauração Francesa [a Primeira Restauração Francesa (1814-1815) que abrange a expulsão de Napoleão Bonaparte e o seu regresso para o Governo dos Cem dias; a Segunda Restauração Francesa (1815-1830), que o período que vai de abdicação definitiva de Napoleão e a Revolução de Julho], acompanhados por comentários que se propõem a discutir a esfera privada, nomeadamente o suicídio como fruto da estrutura social vigente. E é justamente a esta maioria que Marx vai chamar a atenção para a necessidade de uma transformação social, política e económica. A título de exemplo deste último ponto, temos o de um guarda da casa real que ficou desempregado e porque não queria viver às custas da mulher e das suas filhas, resolveu suicidar-se para as livrar de um fardo adicional.
Outro ponto, para o qual o autor chama ainda a atenção, é a opressão feminina nas sociedades modernas. Expondo diversos casos de suicídios, que demarcam o quão vulneráveis eram as mulheres perante os preconceitos e egoísmos sociais que eram personificados na figura dos chefes de família; como, por exemplo, o caso da filha do alfaiate que dormiu na casa do noivo na véspera de casamento e quando voltou para casa foi vaiada pelos pais e pelos populares que ouviram a discussão; a rapariga desesperada decide afogar-se no rio. Após o incidente, os pais estavam mais preocupados com os pertences da filha do que com a própria filha, reclamam os bens na esquadra e entre os quais estavam os presentes oferecidos pelo noivo; desvelando que os objectos passaram a ter mais importância que a pessoa. Por outro lado, os mesmos populares que insultaram esta rapariga, viriam a descompor os pais por terem sido responsáveis pela morte da mesma, demonstrando, assim, a mesquinhez social presente na época. Por fim, salienta-se o facto de o suicídio protagonizado por mulheres se estender a todas as classes sociais, e não apenas às classes sociais mais abastadas, como pode ser comprovado pela tabela de suicídios em Paris de 1824.
Concluindo, de um modo geral, o que a obra procura dar destaque é a necessidade para a mudança social, política e económica. Contudo, olhando aos motivos dos suicídios que o autor relata, a maior parte deles é de natureza de crise social, como que se autor quisesse dizer que se queremos mudar as duas últimas convenções (política e económica), devemos primeiro começar por esta (social). Sendo que esta serve de pilar para as outras duas, mas nem por isso deixa de ser afectada pelas mesmas. Não é pois, por acaso, que o Marx posterior – o Marx do Capital – dê conta que o sistema capitalista (alimentado pela circulação do capital) tenha como fundamento relações sociais que se tendem a reproduzir (nomeadamente, relações entre o proletariado e a burguesia). Assim, por um lado, o capital é o resultado destas interacções sociais (sintetizado em classes), por outro, produz e perpetua estas mesmas relações.


Fernando Alves Pereira de Almeida

sábado, 18 de fevereiro de 2012

"REPRESENTAÇÕES DA PORTUGALIDADE" - Lançamento

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Organizado por André Barata, António Santos Pereira e José Ricardo Carvalheiro, o livro será apresentado por Fernando Paulouro, no dia 23 de fevereiro pelas 17:30, na Real Fábrica Veiga.

"Representações da Portugalidade", em livro, são fruto das Jornadas Multidisciplinares, com o mesmo nome, que decorreram na
Faculdade de Artes e Letras em 2010, por ocasião do seu decénio de existência.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

A UE a meio caminho

Sucumbir a meio caminho é trágico: esse é o sentido trágico da UE e, simultaneamente – esperemos que não! - o seu destino: sucumbir a meio caminho. A meio caminho entre uma mera e "utilitarista" conglomeração de Estados-soberanos e uma autêntica Federação de estados. A meio caminho entre emissões da dívida pública lançadas individualmente, i. é, por cada Estado-membro em particular, e os tão falados eurobonds (enquanto emissões colectivas da dívida europeia considerada como um todo e uma só). A meio caminho para a harmonização fiscal (decerto ainda não nos esquecemos do “escândalo” da Jerónimo Martins!). A meio caminho para a correcção dos desequilíbrios macroeconómicos presentes dentro da própria Eurozona – não esqueçamos os superavit´s nas balanças comerciais de países como a Alemanha e a Holanda. A meio caminho entre uma ética forjada na iníqua relação devedor/credor e uma ética potencialmente equitativa da negociação assente na igualdade e liberdade das partes. Enfim, a UE a meio caminho, sempre a meio caminho…


David Santos.

Das Esferas

Considerando a antiga e tradicional dicotomia entre esfera privada e esfera pública, denota-se que esta se desfaz numa emergência da esfera social na modernidade e contemporaneidade. Temos assim o social, em detrimento do público e do privado.
Se considerarmos esta “nova esfera social”, e a admissão de uma esfera do íntimo, penso que tem havido uma recaída desta última nas teias* (o termo não poderia ser mais certeiro) da primeira. Esta situação requer uma reflexão que, à partida, poderá ser considerada de extrema dificuldade, dado o certo distanciamento de que uma investigação carece entre o sujeito e o objecto. Isto é, como poderei indagar acerca desta dicotomia estando todos os dias embrenhado na mesma? Não obstante, é possível obter um distanciamento mesmo estando por dentro do sistema, quero dizer que o distanciamento não significa forçosamente a exclusão, não corta cerce a possibilidade de contemplação, antes pelo contrário: possibilita esta contemplação, e ainda, o importante “viver com”.
O labor e o processo vital passa, lentamente, ou talvez mais rápido do que julgo, por todos os dias dar uma prova ontológica nas redes que nos permitem “estar”, e nos mostrar ao mundo.
A tecnocracia evidente no mundo actual, espelha de um modo flagrante e altamente manipulativo das massas, a perda de distinção, por um lado entre público/social e, por outro, entre privado/íntimo. Por sermos manipulados e jogados como dados, as repercussões são várias e graves, desde o surgimento de uma pseudo-liberdade à perda de identidade pessoal. Estas confusões conceptuais que nos levam a agir no sentido da mudança, respectivamente de paradigmas históricos, levam a que, como foi supra referido, o íntimo caia na rede do que é agora a rede social.
Surge então, também, um paradoxo que mais actual não se pode encontrar. Este paradoxo de que falo exibe-se, quando, ao mesmo tempo, coexistem a erosão do íntimo e da esfera privada com a protecção judicial e judiciária desta mesma matéria, que se estende pela propriedade de cada um.
Aquilo a que podemos chamar a harmonia pública espelha-se deste modo na esfera social, onde todos nós nos aventuramos e gritamos “eu existo!”, ainda com uma suposta protecção da propriedade e do privado. Assim o Homem se consome, pelas suas próprias mãos, e se perde pelos seus próprios passos, exibindo depois um esforço de reencontro, consigo mesmo…

* Net, Web – Rede, Teia
Plo' Sexto Empírico,
Luís Mendes

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Ideologiazinhas

A ideologia não acabou, o que acabou foi o seu aspecto trágico, com todos os seus excessos, descomedimentos e, claro, "vítimas colaterais". Quem se atreva a fazer uma compilação dos discursos de todos os protagonistas deste governo PSD-CDS e esforçar-se por lhe dar uma coerência, um sentido, encontrará ideologia ao mais alto nível, não ainda sob o seu cariz trágico, mas já em forma de farsa. Por isso, e como resultado, o paternalismo, um Primeiro-Ministro que tem tanto a nos ensinar sobre o modo como nos devemos comportar pela vida fora, sobre quem são os bons e os maus exemplos, quem devemos e não devemos ter como exemplo, etc, etc.
Suma prova disso mesmo é o último discurso do nosso Primeiro-Ministro por ocasião do aniversário da Pedago. Não, aquilo, aquele discurso, não é fanfarronice ou demagogia, aquilo é pura ideologia. É o esforço de converter aquilo que é apenas fantasia numa espécie de ética pública. Essa fantasia tem o seu modelo num certo tipo de herói que podemos encontrar em certos filmes de Hollywood. O herói que, munido apenas com a sua vontade e perseverança, e ainda que por vezes lhes sumam as forças e tenha também as suas dúvidas existenciais, se ergue sempre de novo, alentado pelos seus mais altos valores e pela mais nobre noção de dever. Este herói não é “piegas”, não tem “papas na língua”, sabe distinguir perfeitamente o bem do mal, a competência da incompetência, e, também por isso, só pode ser muito exigente, tanto para si, como para os outros.
Para este tipo de herói o Estado não existe, ou, se existe, de duas uma, ou se resume a um conjunto de burocratas que só estão ali para complicar a vida, ou deve-se confinar aos tribunais, à polícia, aos diversos serviços de protecção civil, a umas medalhas de mérito e uns pequenos incentivos ao “bons filhos”... Para este tipo de herói, a causa de existirem pobres e muito pobres, ricos e muito ricos, está, unicamente, no facto de que uns se esforçaram para chegarem onde estão e outros não; que uns são malandros e outros não. E isto também diz respeito à situação do nosso Portugal, se alguém tem culpa da situação a que chegou este país são os próprios portugueses, que não são “exigentes”, que não são produtivos, que são demasiados complacentes, com aquela moral mesquinha do coitadinho, enfim, portugueses que se contentam com um prato de lentilhas. Portugueses que preferem mendigar, de parasitar pelo subsidiuzinho do Estado, ao invés de porem “mãos à obra”, de serem empreendedores procurando quimérico crédito em quimérico banco ou simplesmente arranjarem um emprego, tendo em conta os milhentos postos de trabalho que por aqui proliferam.
Carnaval, pontes, feriados? Isso são coisas do passado, coisas de um certo tipo de cultura pública que confunde certas contingências históricas com direitos que se tomam por adquiridos e extemporâneos. Afinal, tudo está bem, nós, portugueses, é que nos temos de esforçar mais. Ainda vão ver – às tantas exalta-se o herói – se trabalharem tanto como eu trabalho, daqui a cinco anos, mais coisa menos coisa, Portugal não embaraçara, de certo, uma Itália, uma França, quiçá, uma Alemanha. Emigrar? Emigrem pois, não estamos nós na era da globalização, não acompanhamos nós o espírito do tempo, não somos modernos?
David Santos.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Husserl



O centro de estudos de Filosofia (CEFi) da faculdade de ciências humanas da UCP vai realizar um curso livre subordinado ao tema: a ideia de Europa em Edmund Husserl, em cinco sessões: 28/02; 06/03; 13/03; 20/03 e 27/03 de 2012 entre as 18h e as 20h. Orientado pelo Professor Doutor Carlos Morujão. Inscrições limitadas com certificado final de participação.

Mais informações em: http://cefi.fch.lisboa.ucp.pt/

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Reflexões esparsas

A autonomia é a condição ética para nos podermos, com legitimidade, auto-afirmar. Sermos autónomos é tão simples como não dependermos de terceiros, isto, em diversos níveis e que não são necessariamente inter-dependentes, assim, podemos não ser autónomos ao nível financeiro, mas podemos ser autónomos ao nível cognitivo, e podemos, inclusive, não ser autónomos em quaisquer destes níveis. Assim, quando não somos autónomos, dependemos de terceiros, e se dependemos de terceiros já não somos soberanos – já estamos a ver aonde esta conversa nos pode levar! Mas, o pior, é que se não formos autónomos a nossa legitimidade moral para podermos formular juízos morais sobre aquilo em que precisamente não somos autónomos, por assim dizer, cai por terra.
Para que as coisas se possam tornar mais claras, vamos àquilo a que Marx chamava de “robinsonadas” (aqueles exercícios engraçados que os economistas liberais gostavam de fazer para explicarem os seus argumentos): imaginemos pois, que caímos em tal estado miserável, que passamos a depender inteiramente da bondade do vizinho, ou de uma dessas instituições sociais de caridade. Imaginemos pois, que dependemos, para nossa sobrevivência, dos trocos que o nosso vizinho caridosamente nos dá, ou da comida que certa instituição social nos fornece. Nesta situação hipotética, que legitimidade temos afinal, para nos queixarmos sobre se a comida que nos chega dessa instituição de caridade tem muito ou pouco sal, ou se os trocos que o vizinho nos dá só chegam para comprar latas de atum?
Concluímos então que, para podermos, com legitimidade, nos auto-afirmarmos, isto é, para podermos expor – sem sermos olhados de viés - os nossos pontos de vista e fazer vincular perante os outros a nossa posição sobre dada situação, torna-se necessário, por “contingência ética”, que sejamos autónomos.
Mas, claro, isto é apenas mais uma grande “robinsonada”, porque, na verdade, a autonomia, nomeadamente a financeira (aqui mais fácil de entender), não depende somente, e por vezes não depende de todo, da nossa exclusiva vontade. Se uma dada economia não cresce, não cria postos de trabalho, como é que o nosso amigo que caiu na miséria pode, novamente, recuperar a sua autonomia financeira – ainda que essa seja a sua vontade. Neste caso, é evidente que o nosso amigo tem legitimidade moral para julgar as políticas que um dado governo tomou ou tem tomado e que, do ponto de vista do nosso amigo, tem prejudicado a sua autonomia financeira. Da mesma maneira que um Estado, que ainda que já tenha verdadeiramente perdido a sua autonomia (consequentemente, a sua soberania) e dependa financeiramente de terceiros, tem legitimidade moral para criticar certos acontecimentos ou contextos, se, esses mesmos acontecimentos ou contextos, não dependem de todo, de sua exclusiva determinação, e que, ainda assim, ou por isso mesmo, tiveram por efeito, directa, ou indirectamente, a falência progressiva da sua autonomia.
Claro que, no final de todas as contas feitas, tudo se volta a embrulhar de novo. Já que, por um lado, tanto o nosso amigo como a grande figura do Estado, e ainda que não sejam autónomos em certo aspecto ou em vários aspectos, podem ter, ainda assim, legitimidade moral, para formular juízos éticos, para se auto-afirmarem, alegando legitimamente que a situação a que chegaram – a tal perda de autonomia - não foi provocada por sua exclusiva vontade, ou por quaisquer factores “endógenos”. Mas, por outro lado, e porque dependem de terceiros, a sua capacidade de se auto-afirmarem volta a estar condicionada pela tolerância de terceiros (para não dizer outra coisa) porque, exactamente, não são autónomos. Eis, talvez, o drama do nosso amigo, de Portugal, da Grécia e de mais uns poucos.
David Santos.

domingo, 14 de novembro de 2010

Dia Internacional da Filosofia

Dia 18 de Novembro pelas 20:30 no Clube União assinalamos o Dia Internacional da Filosofia. Juntem-se a nós!


Confirmações para o email até às 18:00 horas de terça-feira.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Emergência e Autonomia do Político


Colóquio Internacional «Emergência e Autonomia do Político (Tardo-Medievo e na Proto-Modernidade)» no âmbito do IPF - Instituto de Filosofia Prática da Universidade da Beira Interior – Covilhã, nos dias 25 e 26 de Novembro.