quinta-feira, 12 de abril de 2012

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Os assassinos entre nós, Simon Wiesenthal (II)

Linha Geral: A segunda parte de um texto bem recheado, com considerações sobre a obra Os Assassinos Entre Nós, de Simon Wiesenthal. Qual a visão sobre a eutanásia? Das vidas que não o merecem ser. As questões finais, que pairam, acerca do direito à vida e à "mentira" de Auschewitz, convidam o leitor a indagar-se na profundidade do seu ser. 

Outro ponto forte do livro é a eutanásia que visava fundamentalmente os velhos, os atrasados mentais e os doentes incuráveis alemães. A operação dava pelo nome de Vernichetung lebensunwerten Lebens (destruição-de-vidas-que-não-merecem-viver), cujos eixos de execução desta máquina eram: Hadamar, Somenstein, Castelo de Hartheim e Castelo Grafenegg; mais tarde a operação estendeu-se aos diversos campos de concentração espalhados pela Alemanha e pela Áustria sob o código 14f13 agindo sobre os doentes inválidos dos campos de concentração. Como tarefa, os médicos observavam as fotografias e as fichas dos doentes designados por «comedores inúteis em potência», para se decidirem quais é que deveriam matar. A designação de «comedores inúteis» surgiu da teoria nazi de que aqueles que consumiam bens valiosos e nada produziam deveriam morrer, sendo a eutanásia uma opção quase ética e inicialmente reservada aos alemães.
A título de curiosidade, existe um pós-escrito no final do livro que relata um passeio numa aldeia próxima do campo de concentração de Lwow, numa tarde de Setembro de 1944, entre o S.S. Rottenführer Merz e Wiesenthal. Neste passeio Merz questiona Wiesenthal sobre o que diria se chegasse à América e lhe perguntassem acerca daquilo que viu nos campos de concentração, ao que Wiesenthal responde que diria a verdade. Perante esta resposta, Merz confidencia que, mediante os episódios que diariamente o circundam, acorda muitas vezes a questionar-se se aquilo que experienciou nos campos de concentração é realidade ou é um sonho. Merz adverte a Wiesenthal que se comunicasse aquilo que se sucedia nos campos de concentração, ninguém lhe daria crédito pela história horrível que contara, e provavelmente interná-lo-iam num manicómio.
Desta vez resolvemos deixar algumas questões em aberto, baseadas nesta obra, para serem discutidas e, assim o espero, comentadas pelo leitor, e essas questões são: A) Deverá a engenharia genética utilizar seres humanos para o seu “progresso”? B) Com que poderes e motivos é que podemos decidir sobre a vida do outro e, consequentemente, pôr-lhe um fim? C) Poderá alguém ser acusado de genocídio, quando apenas estava a cumprir ordens superiores e cuja vida dependia do cumprimento dessas mesmas ordens? D) Porque é que uma verdade tão horrível, como aquilo que se passava em Auschewitz, pode ser considerada uma mentira?


Fernando de Almeida

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Porque esqueceram o humanismo? (A sobrevalorização do pensamento técnico-científico)

Linha Geral: Será o inumano a condição do homem moderno? Tudo se justifica à luz de uma racionalidade técnico-científica que tende a alienar a dimensão verdadeiramente humana do humano em prol do cálculo permanente, da coisificação permanente do homem. E, por isso mesmo, as políticas de distância, os planos, a "troika", em substituição de uma prática de proximidade que valoriza o singular e único.  

O alerta para as nefastas consequências da excessiva racionalização da sociedade contemporânea percorreu quase (senão mesmo) todas as correntes filosóficas do século precedente. Este alerta foi feito pelos mais diversos filósofos. Filósofos que vão desde Husserl até Lukács, passando por Weber, Heidegger, Adorno e Horkheimer; podendo até ser também encontrado nos filósofos mais tardios, tais como Marcuse, Jonas, Ellul, Foucault, Habermas, e até mesmo em Virílio, Sloterdijk e Zizek. Para a Filosofia, a importância do problema da racionalização excessiva é evidente. Mas até que ponto aproveitou a sociedade contemporânea a problematização filosófica da racionalidade técnico-científica?
Numa análise dos fundamentos do pensamento económico sob o qual se sustenta toda a sociedade contemporânea (tal como no texto que o David Santos escreveu sobre Latouche se demonstra) encontrar-se-á esta racionalidade técnico-científica. O mesmo tipo de racionalidade que preza pela objetividade, pelo facto, pela eficiência, pelo cálculo frio e maquinal. Encontrar-se-á a mesma racionalidade que toma o humanismo como um subproduto; que o caracteriza como o empecilho (constrangimento) aos desenvolvimentos técnico-científicos. Veja-se a título de exemplo o caso das polémicas em torno dos estudos que envolvem células estaminais na Europa e nos Estados Unidos.
Contudo (e paradoxalmente) é sob esta mesma racionalidade que se edifica todo o sistema social no mundo ocidental. “Não sejam piegas…” diz-se em Portugal, como quem diria: “Não comprometam a eficácia do sistema económico técnico-científico com as vossas queixas, com esses vossos mesquinhos sentimentos humanos”. “Deixem de apelar a um humanismo já ultrapassado, estragam a eficácia do método pela razão escolhido”. E Portugal não é o único, pois é esta mesma racionalidade quem pretende justificar as decisões tomadas por esta Europa fora. Relembrando as célebres palavras de Husserl em A Crise das Ciências Europeias, parece que – passados quase cem anos – ainda é caso para se dizer que “Meras ciências de factos criam meros homens de factos”.
É flagrante esta deificação da racionalidade técnico-científica pela política contemporânea. Ou o que é pior: é flagrante esta deificação da racionalidade técnico-científica na política contemporânea. E é aqui onde se encontra o cerne da questão, pois a essência do problema não está apenas no carácter inumano deste tipo de racionalidade, ela encontra-se também no mau uso que dela é feito.
Na retórica política é agora comum o apelo a um moderno pathos pela eficiência. Veja-se a título de exemplo o conhecido “choque tecnológico” da propaganda política do governo socrático. O apelo à eficiência científica tornou-se no paradigma central das ideologias contemporâneas. A racionalização dos meios pela tendenciosidade económica transforma consigo os fins almejados por um governo. Interessa hoje cumprir com os números, não cumprir com os homens. A crise que se vive em Portugal não é apenas uma crise económica, é também – e sobretudo – uma crise do humanismo.

Ângelo Milhano.

domingo, 1 de abril de 2012

Os assassinos entre nós, Simon Wiesenthal (I)

Linha Geral: Os assassinos entre nós, Simon Wiesenthal. De que trata a obra? Qual apostura de Wisenthal em relação a Eichemann e seu julgamento? O 'pedigree' da raça humana, a 'super-raça' deve eliminar as demais. O que foi a ODESSA, e que importância esta última tinha nas fugas? Estas e outras considerações no seguinte texto, repousado na obra e biografia de Wiesenthal.

Os assassinos entre nós, Simon Wiesenthal (n. 31/12/1908 – m.20/09/2005) 
Esta obra é organizada de uma forma um tanto ou quanto invulgar; intercalada entre o perfil e as narrativas de Simon Wiesenthal, tendo sido essas narrativas transmitidas a Joseph Wechsberg que as inscrevera neste livro. 
Os conteúdos existentes na obra descrevem a vida de Simon Wiesenthal durante a Alemanha nazi, a sua posterior queda e, por último, a perseguição levada a cabo por Simon aos criminosos nazis. De entre estes, Simon dá especial destaque a Adolf Eichmann, que durante o julgamento afirmava que não era culpado por nenhum dos crimes que era acusado pela razão de que apenas estava a cumprir ordens, e que as cumpriria mesmo que isso significasse enviar o pai para a câmara de gás. O curioso acerca de Eichemann, segundo Wiesenthal, é que nunca teve mazelas com judeus e, para grande estupefação, ele era palestiniano alemão, membro dos Templários. Outro criminoso referido é Josef Mengele, médico do campo de concentração em Auschewitz entre 1943 e 1944, sendo o responsável pela realização de experiências em prisioneiros judeus com vista ao aperfeiçoamento da raça ariana. Na vida de Mengele constam dois títulos académicos, o de doutor em filosofia (Universidade de Munique) e o de doutor em medicina (Universidade de Francforte), mas que lhe foram posteriormente retirados por ambas as universidades. O motivo da atenção por esta personagem advém da sua teoria de que o ser humano, tal como um cão, possui uma espécie de pedigree. Arraigado nesta crença, Josef acredita na criação de uma «super-raça» e de que as raças inferiores deveriam ser exterminadas, em função disso desenvolveu um programa de procriação desta «super-raça», selecionando jovens que obedeciam aos cânones da raça ariana para serem encaminhados para campos de procriação. Na sua fuga da Alemanha, Josef foi ajudado pela organização O.D.E.S.S.A., passando pela Argentina, Grécia, Brasil, Paraguai e pelas colónias alemãs do Paraná Superior. Pensa-se que Mengele se fixou na selva brasileira, que faz fronteira com o Paraguai, entre Puerto de San Vicente, ou entre a ligação rodoviária Assunção – São Paulo, e a fortaleza Carlos António Lopéz. 
A organização atrás mencionada foi responsável pela criação da rota de Odessa, um passaporte de saída para os criminosos da elite das S.S. e da Gestapo; cujas vias de fuga eram organizadas pela BSHA (Ministério do Interior das S.S., que englobava os serviços de espionagem e contra-espionagem). As vias tinham como destino: Espanha, Médio Oriente, Argentina e Paraguai. A rede contava com a ajuda de correios, nomeadamente, camiões de mercadorias para saída do país além dos transportes ilegais; os criminosos nazis recorriam ainda aos mosteiros e às estalagens como meios para passar a fronteira. Este transpor da fronteira era facilitado pelas boas relações entre a Odessa e as embaixadas, dando o exemplo da afinidade de relações entre a Odessa e a embaixada espanhola presente na década de 40. 
(cont.) 

Fernando de Almeida

domingo, 25 de março de 2012

As 11 ideias de Serge Latouche

A Linha Geral: Do discurso e entrevista a Serge Latouche. O crescimento económico é um fim em si mesmo? Não será esta ideologia ilógica? Este obsoleto e perigoso pensamento, na sua aplicabilidade,  poderá ter como consequência a perda de "bela experiência", recheada de valores. O Homem não é o fim de uma linha evolucionista. Porém, de acordo com os paradigmas vigentes, corre o sério risco de o vir ser. Temos aqui apresentada uma nova e revolucionária visão acerca da organização dos "tempos". Que nos propõe, sucintamente, o pós-materialismo? Temos de largar fantasmas e fantasias, temos de desmistificar promessas que nos foram feitas.


Serge Latouche, tal como Paul Krugman, esteve em Portugal. Foi há bem pouco tempo (aproximadamente três semanas). A celeuma, infelizmente no meu entender, não foi tanta quanto aquando da vinda do nobelizado – normal, dirão uns, triste, direi eu.
Convidado pela Fundação Calouste Gulbenkian, Latouche deu ainda uma entrevista para o jornal Público, publicada a 19 de Março. Foi a partir desta entrevista que coligi estas onze ideias de Latouche nesse espaço arrogadas:  
1) A lógica do crescimento económico pelo crescimento económico adquiriu contornos religiosos. Os economistas assumiram, de forma dogmática, que a dinâmica das relações sociais deve orbitar em torno desse valor – o crescimento. Assim, o que Portugal precisa é de crescer; o que a Europa precisa é de crescer; os Chineses não podem crescer se os Europeus e os Americanos não crescerem também... e, infelizmente, assim vai o mundo. Justificam-se todas as ideologias e colaterais excessos, demagogias e patifarias, à conta desta crença económica;
2) Para que o dogma do crescimento económico se conserve torna-se imprescindível multiplicar necessidades, i. é, criar constantemente falsas necessidades, de modo a que tenhamos de trabalhar mais, de produzir mais, de nos cansarmos mais, de nos iludirmos mais, de endoidecermos e embrutecermos cada vez mais, enfim, de desperdiçarmos cada vez mais a experiência estética do estar-aí, do estar-no-mundo (a filosofia é, em parte, o convite para essa bela experiência);
3) Não pode haver crescimento ilimitado com recursos limitados - lições de lógica elementar que a filosofia no secundário já devia ter ensinado (alguém que não está a fazer o seu trabalho!);
4) “Se não mudarmos o sistema, caminharemos para o desaparecimento da humanidade”. Por sua vez, para mudarmos o sistema temos de alguma maneira transitar de um paradigma antropocêntrico para um paradigma biocêntrico; de uma ética especista para uma ética ecológica;  
5) A crise financeira é, antes de ser financeira, económica. A crise económica é, antes de ser económica, civilizacional. Foi o próprio modelo económico assente na promessa ou na pseudo-racionalidade do crescimento ilimitado que deu o poder que hoje detêm os detentores do capital financeiro (por oposição ao capital industrial); “a ilusão do crescimento [provocou] a bolha financeira”; o capital financeiro tão só se alimenta desta promessa da economia. Por sua vez, a crise económica é uma crise civilizacional onde o que vale é o ter, é a possessão, é o materialismo grosseiro;  
6) Tornou-se imprescindível, por todas as razões aqui aludidas, fazer uma revolução. Uma revolução cultural, de mentalidades; isto antes dos bombos, das espingardas e dos cravos. É preciso dar um passo em frente na história, forjar a tal sociedade pós-material (pós-desenvolvimento) onde o que importa é sustentar/garantir racionalmente um minimum material (traduzido em um minimum universal de alimentos, de habitação, de trabalho, de Internet...) de modo a que as pessoas, tendo garantido esse minimum material, possam se dedicar ao que realmente importa: a amizade, o amor, a arte, a liberdade, o diálogo, enfim, todos os valores que realmente importam e que realmente têm por efeito a criação da tal sociedade de bem-estar (que a economia tanto prometeu, ora, com a sua promessa de abundância indefinida, ora com a sua “mão invisível”, ora com a sua “luta de classes”…);
7) É preciso "descolonizar o nosso imaginário". A felicidade, a sociedade de bem-estar, não está no ter coisas, i. é, bens materiais. Temos que lidar positivamente com o facto de não sermos eternos e que a “mão invisível” do progresso humano/tecnológico não nos conduzirá a uma espécie de sociedade pós-humana, pós-histórica, onde satisfaremos todos os nossos desejos sem prejudicarmos os outros (tanto os outros humanos, como os outros não humanos, como todo o ecossistema – a “teia da vida”); 
8) A lógica do crescimento diz que é preciso indefinidamente crescer, nunca pararmos de crescer, isto porque, como é evidente, nunca paramos de consumir. Mas este raciocínio é obviamente falacioso porque tenta justificar o irracionalismo ligado ao dogma, ao aspeto religioso do crescimento pelo crescimento, contra uma verdadeira e desmistificada racionalidade onde trabalho e distribuição dos seus produtos têm como finalidade garantir um mínimo de bem-estar universal/global progressivamente sustentado e uma vida realmente digna;
9) "É preciso, antes demais, trabalhar menos". Temos de começar a pensar em como produzir tempo livre – este deve passar a ser o nosso grande objetivo económico. Como é evidente, para que possamos produzir tempo livre temos de ter, mais uma vez, garantido o tal minimum material dado pelo antecedente tempo de trabalho (mas, é precisamente esta inversão de valores, de objetivos, do tempo de trabalho para o tempo livre, que é verdadeiramente revolucionária);
10) Temos que mudar o paradigma, ter como valor económico não o crescimento pelo crescimento, mas sim, a "abundância frugal". A produção, o trabalho social, deve estar, como é de bom senso, subordinado às necessidades indispensáveis à sociedade mas não ao crescimento, à “produção infinita”; 
11) A sociedade precisa de se defender dos "ecofacismos" e/ou ecototalitarismos que podem despontar depois de, eventualmente (ou necessariamente), termos de sair da sociedade de consumo à força. Enfim, é preciso continuar a defender a democracia, a autonomia, a razoabilidade, a liberalidade, isto independentemente da revolução pelo qual tivermos de passar.   

David Santos.


quarta-feira, 21 de março de 2012

Da Primavera Filosófica (I)

A nossa inquietude acerca dos paradigmas vigentes desdobra-se em várias perguntas, e estas as colocamos em cima da mesa. Acreditamos na filosofia! Nas suas ferramentas, na ponte que estabelece entre saberes, bem como na visão ampliada e rigorosa que esta faculta. Este é o nosso contributo. Uma filosofia primaveril. Existem belas flores a desabrochar.


O Sexto Empírico.

domingo, 18 de março de 2012

Prémio UBI Jovem Filósofo

PRÉMIO UBI “JOVEM FILÓSOFO”
3ª Edição 

Até 30 de julho de 2012, estão abertas as candidaturas ao Prémio UBI "Jovem Filósofo", subordinado ao tema: "A importância da Filosofia em tempo de crise". Para alunos que frequentam o Ensino Secundário e tem como propósito reconhecer um trabalho de excelência sobre um tema ou problema filosófico considerado relevante.

O prémio para esta edição será constituído pela publicação do ensaio vencedor, pela apresentação do trabalho na aula da área científica correspondente à questão que vai a concurso, por um fim de semana para duas pessoas num estabelecimento da rede “Pousadas da Juventude” e pela atribuição de um Certificado. Está ainda prevista a atribuição de menções honrosas. 

Que homens são estes?

Que homens são estes que me rodeiam? Que homens são estes que habitam este vastíssimo amontoado de corpúsculos? Que homens são estes se não homens erróneos? Que homens são estes que não conseguem compreender aquilo que realmente está em causa? Que homens são estes? Que homens são estes? Talvez seja eu demasiado vagabundo e inconsciente, ou talvez esta inconsciência nem sequer exista. Talvez… Vero é que tenho ciente em mim de que algo não está bem. Vá-se lá saber o quê… Existe algo que me transcende, não consigo compreender o porquê das acções destes homens. Talvez o erróneo até seja eu, talvez… Ainda assim, continuo a tentar descobrir estes homens. Que homens são estes que se destroem mutuamente? Que homens são estes que não conseguem solução para um erro, sem simplesmente cometer outro erro? Que homens são estes, que com tanta inteligência estão a destruir a terra? Que homens são estes que não conseguem mudar? Que homens são estes que mais que homens me parecem burros? Que homens são estes? Que homens são estes que se auto-superiorizam perante os outros animais? Que homens são estes que pensam ser eles próprios o fim da linha da evolução? Se bem, que a continuar assim pode muito bem ser esta a maior das verdades. Para além de existir entre nós uma enorme crise de valores, uma sociedade completamente corrompida, existem ainda homens que se auto-superiorizam, que “pensam” ser o centro do planeta, que pensam dominar tudo, mas serão estes homens verdadeiramente inteligentes? Serão estes homens verdadeiramente bons? Penso, se ainda me for permitido pensar, que o homem é o seu próprio destruidor, será que estou errado? Se o estiver que me crucifiquem. Enquanto isso não acontece continuarei a tentar descobrir que homens são estes… E mais uma vez, encontro-me envolto de questões para as quais não consigo obter conclusões. No meio de tantas questões começo a desconfiar, será que no meu inconsciente eu sou como todos os outros?

O homem é o destruidor do homem…
Que homens são estes que afinal nem sabem aquilo que são?
Que homens são estes? Que homens são estes?
Serão homens?


João T. Santos

domingo, 11 de março de 2012

Estado de Direito e Estado de Excepção - O julgamento do representante político

Como evidente as "fontes" de legitimidade do representante político no Estado de Direito (EdD) e no Estado de Excepção (EdE) são perfeitamente distintas. No EdD a legitimidade do representante político provém da "estrutura constitucional e institucional" pré-definida e pública e da universalização (fundada na legitimidade democrática) das "regras do jogo" (o processo político com a sua divisão tripartida do poder em legislativo, executivo e judicial; a regra da maioria; o multi-partidarismo; a lógica do parlamento...). Já no EdE a legitimidade do representante político se funda, precisamente, no próprio carácter excepcional do "estado de coisas".
Assumidos estes pontos reflectiremos sobre a legalidade (ou não!) do julgamento do representante político (tanto no EdD como no EdE) quando as suas decisões antes de se averiguarem serem fundadas no interesse público, no bem comum etc., são decisões, quer no estado excepcional quer no estado regular, sempre legitimas - ainda que, as suas "fontes" de legitimidade difiram de maneira antagónica. A ressalva essencial a fazer é a de que no EdD há todo um aparato legislativo que torna possível (e legítimo) a condenação do representante político quando, repare-se, as suas decisões não estão fundadas naquilo que está garantido previamente pela "estrutura constitucional e institucional" e das universais e conhecidas "regras do jogo", quando, em suma, o representante político, no EdD, deixa de ser tido como tal e passa a ser julgado/encarado como um cidadão entre todos os outros (i. é, sem qualquer legitimidade política, sem a tal imunidade política) ainda que tenha sido precisamente na condição de representante político que tenha lesado o Estado de Direito. 
No EdE tal não sucede, tal separação entre o representante político e o não representante (o cidadão comum), porque, precisamente, a condição de representante político não está fundada em quaisquer "estruturas constitucionais e institucionais" ou universais e públicas "regras do jogo" que arbitram, limitam, o papel do representante do público. Assim, no EdE a norma é substituída pela arbitrariedade, sem que, atenção, a questão da legitimidade política seja por isso abalada ou posta em causa - as "fontes" de legitimidade são distintas num e noutro tipo de Estado mas não deixam, por isso mesmo, de ser "fontes". Assim, no EdE, pela suspensão da normatividade jurídica, o "ditador" é um representante político a tout court, onde não ocorre a distinção do sujeito enquanto representante político e enquanto homem comum: efeitos do estado de excepção. No EdE o representante político só pode ser levado a tribunal quando é restaurado todo o aparato jurídico que este suplantou, antes disso não há julgamento e o "ditador" está literalmente acima das leis. 
De qualquer maneira, feita a devida ressalva, se lemos com atenção, em outro dos aspectos em que EdD e EdE concordam é no facto de que, as decisões políticas - em si mesmas - são intrinsecamente, são sempre, transcendentes à legitimidade à qual recorrem (tanto no EdD como no EdE). Quer dizer, são imanentes porque a sua legitimidade emana ou da norma ou da excepção (dependendo da forma do Estado), mas, simultaneamente, e não em contradição, são transcendentes a esta emanação da legitimidade porque, na arena política, não está tudo decidido na forma de legitimidade, nem no prévio enquadramento normativo. Há um qualquer resíduo fundamental, um extra-norma, um extra-legislativo, que, por si só, justifica o sentido da política. De facto, esta é a condição do representante político - se quisermos, a sua justificação e fundamento. O facto de existir um representante político justifica tão só o sentido da nossa existência colectiva e relembra de maneira fundamental as incertezas relativamente ao nosso futuro, onde não está tudo decidido no aparato legislativo e as decisões do representante político (do executivo) têm a força do excepcional, da incerteza, do imprevisto, do transcendente. Nesse caso, o que faz a separação dos poderes, o procedimento político em si, o pluralismo ideológico e/ou partidário… é, tão só, limitar esse carácter excepcional que faz do representante político um cidadão excepcional, de modo a que este não subverta os princípios fundamentais relacionados com a democracia. 
Mesmo no EdD, salvaguardadas as diferenças aqui mesmo identificadas, subsiste um carácter excepcional (extra, transcendente) referente às decisões políticas que não permite que os seus representantes sejam julgados, ainda que, como dissemos, uma distinção seja possível de ser levada a cabo num EdD: a distinção entre o representante político propriamente dito (com o seu carácter excepcional) e o cidadão comum (igual como todos os outros perante as leis). Isto não significa que o representante político esteja acima das leis, como disse acima, há todo um aparato legislativo específico que o obriga a responder perante estas, mas, insisto, a justificação para a sua existência (do representante político) está precisamente naquilo que escapa ao aparato normativo do direito e que é da ordem da necessidade existencial de se fazerem escolhas fundamentais, escolhas estas inevitáveis e de efeitos sempre imprevistos. Significa isto, também, que o tão desejado "reino dos céus", o paraíso perdido, a história anti-histórica do pós-político ainda não chegaram. Felizmente! 
Conclui-se também, do que decorre, que não há legalidade, que é ilegítimo, o julgamento do ex-primeiro-ministro da Islândia. A retirada da imunidade política ao ex-primeiro-ministro Gerir Haarde e o seu consequente julgamento só é legal enquanto o que estiver em causa for o desrespeito das normas jurídicas já pré-estabelecidas. Assim, mesmo num EdD, Gerir Haarde não pode ser julgado enquanto representante político, mas apenas como o cidadão entre outros que, reitero, também é. Não pode ser julgado pelas escolhas que fez, pois estas, como referi, estavam legitimadas pelas “estruturas constitucionais e institucionais” e públicas e universais “regras de jogo” previamente conhecidas. O que pode ser julgado, por um lado, é o processo político como um todo; por outro, se Gerir Haarde utilizou o seu cargo para privilegiar interesses privados em detrimento do interesse público, etc.

David Santos.

GAUGUIN, Paul - Two Tahitian Women With Mango Blossoms



Um sintetismo da natureza alegórica. Não é erótica, esta representação do nativismo taitiano?