quinta-feira, 26 de abril de 2012

O Nó da Europa: sob o ponto de vista das eleições presidenciais francesas


 
A primeira volta eleitoral para o cargo de presidência da França, não representa, ou não põe em causa, tão só, as esperanças do povo francês em relação ao sempre-por-fazer solucionamento dos seus problemas geograficamente circunscritos ou nacionalmente auto-centrados e auto-geridos. Uma das características fundamentais da globalização, característica esta que faz parte mesma do fenómeno e conceito da globalização - que atinge o seu ápice e se solidifica, com todas as suas contradições, na própria UE (e é a UE que está aqui em causa) - pode ser, para melhor ser compreendida, desdobrada reflexivamente em dois pontos fundamentais que no fundo representam apenas um. Em primeiro lugar, podemos denunciar uma certa incapacidade cognitiva por parte dos cidadãos (incapacidade esta que, perspectivada positivamente, se converte em distinta capacitação cognitiva relativamente a outro passado histórico - passado este, como evidente, pré-UE) de na sua ponderação relativa à escolha dos próximos eleitos negligenciarem o efeito dessa escolha fundamental no "palco do mundo" - assim, os Estados-nações não se distinguem face a si mesmos, mas em relação a outros Estados-nação, tendo ainda em conta um emaranhado de instituições supranacionais e pontuadas resistências locais que têm por efeito provocar, realizar e justificar mesmo a "ordem do discurso" dos mais altos representantes dos Estados-nação, em suma, "cumprir a agenda". 
Mas a grande contradição que aqui subsiste, e que perfaz o "nó da Europa", é que os autênticos participantes são simultaneamente e de forma irremediável, os mais autênticos espectadores. Assim, os franceses estão a eleger aquele que pretendem que seja o seu mais alto representante das suas expectativas face aos seus próprios interesses (ou na retórica nacionalista, aqueles que são "os mais altos interesses da França, do povo francês"; isto, ainda que o que esteja em causa seja, p. ex., o posicionamento político do governo francês face à UE), mas nós, não-cidadãos-franceses, que não temos a capacidade de eleger para este país, é que somos os autênticos participantes deste "circunscrito palco eleitoral". Isto porque, em primeiro lugar, nós que somos, contraditoriamente, meros espectadores de todo este espectáculo democrático "limitado", somos simultaneamente os mais vocacionados - pela nossa distância estrutural - para defender os interesses não tão só de um público nacional, mas de um público autenticamente europeu e mesmo, mas mais distanciado, público global. Podemos sugerir que há um conflito irreprimível e, atenção, perfeitamente legítimo, entre o eleitorado francês nesta eleições particulares e a totalidade dos cidadãos europeus excluindo o povo francês. Isto, como é natural, devido ao "peso" da França no que respeita à condução das políticas que se deliberam e saem de Bruxelas. "Peso" este que assegura, precisamente, a legitimidade das eventuais mobilizações em favor de maior integração democrática ao nível da UE tida como um todo.  
Assim, e referindo especificamente ao candidato e presumível vencedor das presidenciais François Hollande, justifica-se perfeitamente que seja na sua eleição que resida a esperança dos que pretendem reabilitar uma alternativa social-democrata relativamente ao conservadorismo neoliberal que vai varrendo toda a UE, com a exportação forçada de um suposto modelo económico germânico, a constitucionalização do limite à dívida pública, o desinvestimento do Estado na economia através dos mesmo meios de "contenção" das dívidas públicas... 
O problema está assim unicamente no facto de que esta esperança, que perfaz a essência da democracia - o poder de escolher entre várias e diversificadas alternativas e esperar que a sua escolha seja a escolha de todos - está, tanto contra a própria "utopia da UE" como contra as expectativas reais/concretas dos não-cidadãos-franceses que vêem as suas próprias expectativas (a tal esperança que perfaz o âmago da democracia) serem subsumidas pelo monopólio democrata do povo francês. 
Como vêem, a Europa não está cumprida porque a prometida união política ainda não foi realizada - ainda nem sequer começou... É absolutamente frustrante, e devia ser fonte de maiores mobilizações cívicas ao nível desta Europa (será que a UE ainda nos assusta!?), o facto do nosso destino, enquanto cidadãos europeus (que ambicionamos o seu projecto), estar ainda, como neste caso das presidenciais francesas, dependente de velhas estruturas que impedem a realização de uma verdadeira "audiência europeia".  
David Santos.

sábado, 21 de abril de 2012

Discriminação entre bons e maus alunos, será justo?

Linha Geral: O artigo aqui apresentado aborda a notícia divulgada pelo Diário de Notícias sobre o novo regulamento educativo e consequente permissividade da discriminação entre bons e maus alunos. Em fruto da notícia, colocamos uma única questão: A discriminação já não existe, tanto positiva como negativa, sendo esta última mais discreta? É a esta pertinente questão que visamos dar resposta no artigo que se segue:

Este artigo é baseado na notícia divulgada no dia 13 de Abril pelo Diário de Notícias, que expõe que Nuno Crato permite às escolas discriminar entre bons e maus alunos, e que está estabelecido pelo novo regulamento de matrículas para alunos do 5º ao 12º ano de escolaridade possibilitando às escolas elaborar turmas com apenas bons alunos e turmas compostas exclusivamente por maus alunos, fora ainda o aumento do número máximo de 30 alunos por turma o que torna o acompanhamento dos alunos uma tarefa ainda mais árdua.
A distinção entre bons e maus alunos gera dois contrapontos, um positivo e um negativo. No primeiro ponto, podemos abordar estas turmas de maus alunos como uma forma de tentar abordar e de tentar resolver as dificuldades destes alunos e dessa forma possibilitar que esses alunos tenham um rendimento semelhante ao de uma turma de bons alunos, possibilitando a transição de alunos de um extremo qualitativo para outro. Contudo, esta distinção já é feita pelas aulas de apoio que visam especialmente os alunos com baixo rendimento escolar, dando-lhes acompanhamento fora do horário escolar com o intuito de colmatar dificuldades nas diversas disciplinas. A acrescentar, temos os gabinetes de apoio: como o gabinete de psicologia «porque o mau comportamento e o baixo rendimento também podem ter no seu cerne problemas psicopatológicos» e, em algumas escolas, o gabinete de apoio ao aluno e à família que aposta exatamente no auxílio dos alunos no sentido de procurar identificar quais são os seus problemas e de os tentar solucionar, estabelecendo dialogo com a família dos alunos visados.
Já no caso da discriminação negativa, essa existe de forma mais ou menos discreta. O que sai reforçado no aumento do número máximo de alunos, pois o docente não consegue acompanhar de forma apropriada os alunos com mais dificuldades e até mesmo o próprio progresso dos alunos, por essa razão o professor vê-se forçado a centrar-se apenas num dado extremo de alunos, optando normalmente pelos melhores alunos. O que é visível no tratamento que o professor dá aos alunos, cujo fundo são as expectativas que nutre pelo aluno, desculpando aqueles pelos quais tem uma alta expectativa em sentido inverso  dos alunos pelos quais alimenta uma baixa expectativa, este tipo de fenómeno data por efeito pigmaleão. Outra forma de discriminação ainda mais discreta, são os próprios resultados escolares, que segundo Debut (2008; referido por Miguel Santos, 2010), reproduzem o fosso social em que os mais favorecidos têm um melhor desempenho em contraste com os mais pobres, uma vez que estes vivem com meios mais escassos e em consideração a isso estão mais preocupados em satisfazer as suas necessidades do que propriamente com a escola. Por outro lado, são os resultados dos alunos em conjunto com o seu comportamento que dá alento ao aparecimento estigmas, porque normalmente os alunos com mau comportamento e rendimento na escola tendem a ser associados a meios mais pobres e sem quaisquer objetivos na vida.
Claro que a escola, devido aos apoios sociais que oferece, afirma a equidade de oportunidade e através disso a meritocracia, que no fundo não é mais do que legitimar o declive social, como já explicado anteriormente. É esta ideologia elitista que está por detrás de uma educação que cada vez é menos acessível não só na sua estrutura como nos seus custos, o que poderá por em cheque o nível de educação e de equidade económica das próximas gerações.
Será este novo regulamento uma forma de destruição da escola pública? Quem é que beneficia com estas medidas? Deverá a escola pública tornar-se numa escola de elites? Qual o sentido deste novo regulamento?

Fernando de Almeida   

Bibliografia 
Santos, Miguel Ângelo Nascimento dos (2010), O Impacto do Bullying na Escola, Tese de Bacharel, Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Será este governo verdadeiramente liberal ou neoliberal?


Linha Geral: Será que vivemos, de facto, num estado 'neoliberal', como resmunga a oposição?
Para onde, e como correm os enormes fluxos capitais, dentro desta 'nossa' União Europeia? Um texto que espelha aquelas que aparentam ser contradições ideológicas e estruturais, bem como a realidade onde caminhamos e a sua meta.

Paulatinamente desce aos lábios a pergunta e, às tantas, já não dá para reprimir. Porque o que está em causa já não é o mero uso político dos conceitos visando fragilizar o adversário com significados que há muito se esvaziaram do seu sentido original e servem hoje como meras armas de arremesso absolutamente demagógicas (naquilo que se dá, em política, o nome virtuoso de logomaquia). Porque responder a esta pergunta, hoje, é precisamente principiar a refletir sobre a direção que podem estar (ou estão) a tomar as sociedades ocidentais, nomeadamente, e por proximidade de conhecimento, os países da União Europeia. Quando a classe média, num itinerário que tende a ascender geograficamente do sul para o norte, pouco a pouco vê perder o seu poder (de classe) através da quebra do rendimento disponível e das graduais maiores dificuldades de acesso ao crédito, e, em absoluta contradição, quando o capital financeiro continua a circular como nunca, nomeadamente através dos grandes empréstimos feitos pelo BCE a taxas de juro de 1% (só aos bancos portugueses lhes foram concedidos empréstimos, durante o mês de Março, na ordem dos 56,3 mil milhões de euros), que significado profundo nos dão estes sinais que, pouco a pouco, se vão transformando em factos consumados e indubitáveis? Já agora, que nome se dá a uma sociedade onde não existe uma classe média digna desse nome?
Assim, e tomando como exemplo a atuação do nosso governo de coligação à direita, por um lado, todos estamos conscientes do violentíssimo e relativamente ideológico (!) ataque ao funcionarismo público levado a cabo por este, visando comprimir, de forma mais ou menos profunda, a “máquina do Estado” (ainda que, no que toca às parcerias público-privadas, não se tenha avançado um milímetro que seja – e, o que pode ser mais grave, é que pode não existir nesta aparente contradição, contradição que seja!) e desmotivando, deste modo, direta e indiretamente, quaisquer pretensões a quem queira fazer vida neste sector. Novamente, tendo em conta este ataque, não julgo que seja difícil admitir, num primeiro relance, a tentativa deste governo de promover uma ética do empreendedorismo centrada no indivíduo dinâmico, (subsídio)independente e energético (não piegas!) - ainda que, mais uma vez, a carga fiscal elevadíssima persista, de forma sistemática, em frustrar esta “promoção”. Por um lado, com assumida coerência ideológica (no sentido em que não frustrou, com estas medidas, a expectativa dos restantes atores políticos – nomeadamente a esquerda que acusou – e acusa – o governo de ser neoliberal – o governo mais liberal que há memória) o governo aboliu as Golden Share e avançou com as grandes privatizações; privatizações de áreas essenciais à vida, condição e saúde pública, como a privatização da EDP e da REN – entre, claro, muitas outras privatizações, que pouco a pouco, se vão consolidando: CTT, CP… Enfim, com coerência, o governo demitiu-se de negociar com quem quer que seja e que realmente importa, desde o FMI, passando pela CE até ao BCE (a famosa troika) e até “aprofundou” as medidas por estes ditadas aquando da intervenção executiva externa.
Por outro lado, e em espantosa contradição com o extremado “neoliberalismo” deste governo, o capital financeiro continua a inundar a ocidental praia lusitana sem que quem o governo, supostamente, pretendia promover, tenha acesso a este mesmo capital: a tal camada empreendedora, individualista, independente... Enfim, ou o governo quer fazer omeletes sem ovos ou não quer, de maneira nenhuma, fazer omeletes!
Como disse acima, e conforme o Correio da Manhã de 10 de Abril, os bancos portugueses obtiveram, durante o mês de Março, 56,3 mil milhões de empréstimos, a juros de 1%, do BCE. Deste montante apenas aproximadamente 3,9 milhões de euros foram deslocados em empréstimos para as famílias e empresas, a juros entre os 6 e os 7,5%, já que, segurem-se às cadeiras, a maior parte do dinheiro emprestado pelo BCE foi deslocado para comprar divida pública a juros de 4,5% a serem pagos por nós – contribuintes - através dos mecanismos seguros de extorsão do próprio governo através nomeadamente de impostos sobre impostos. Enfim, o capital circula, circula dos bancos para os “cofres” do Estado e dos "cofres" do Estado para os bancos, o governo chega a beneficiar da imagem neoliberal de que o acusam e o povo é que se… lixa!
Persiste a pergunta, este governo é, verdadeiramente, neoliberal ou liberal? A pergunta ganha ainda mais sentido quando o nosso Primeiro-Ministro, em discussão da “regra de ouro” a ser constitucionalizada, assume que esta não é uma medida nem de direita nem de esquerda. Repito, que significado profundo tem tudo isto?
David Santos.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Didática I (we expertise)


Uma representação pictórica da definição weberiana de Estado enquanto "monopólio da violência".
O conceito é o mesmo o que mudam são os figurantes. Abstraia-se, por razões pedagógicas, as legendas aqui presentes - prezamos pela independência. Ao invés de dois burocratas podiamos ter dois altos representantes do clero ou dois nobres. Ao invés de uma polícia com colete à prova de balas podiamos ter uma classe de oficiais com espada na bainha. Ao invés de um povo organizado em torno de exigências como maior igualdade rendimento ou pleno emprego, um povo organizado em torno de exigências como maior tolerância religiosa.  

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Consulados filosóficos, a ideia.

TODOS SOMOS, O SEXTO EMPÍRICO
Assim sendo, faz sentido haver uma maior e mais intensa partilha de responsabilidades e paixões.

O Sexto Empírico teve uma ideia. Dia 21 de Março de 2012, lançámos o manifesto. As sementes foram lançadas, e que belas flores desabrocharam. A terra é fértil e há ainda mais para se mostrar. O nosso próximo passo é proliferar a filosofia, nacional e e internacionalmente, tendo como veículo a língua portuguesa. Sabemos que, embora espalhados geograficamente, há mais interessados que querem o melhor para a filosofia. Com a internet, um fórum, se tem fronteiras, estas só podem ser fictícias.

Como tal, a ideia é a seguinte: CRIAR CONSULADOS.
Para quem? Para os interessados em expandir a filosofia, tendo em conta os diferentes ramos de conhecimento fomentados nas diversas escolas do país.
Ajudem-nos a consolidar esta ideia. O cônsul tem possibilidade/responsabilidade de ficar como administrador. Tanto deste grupo, bem como no blog. Com a tarefa da pertinência e da divulgação, da partilha do saber.

Porque é esta a nossa crença! A filosofia não pode continuar a ser domínio de x ou y, de dado núcleo, criado em x ou y universidade. Outros núcleos há, outros estudantes de filosofia há. Assim, a nossa ideia, é que outros estudantes de filosofia como nós, espalhados por tantas outras universidades do país: Porto, Lisboa, Coimbra, Évora, Minho, Açores... Possam também ser administradores - promotores - deste impulso, de modo a criar e a fortalecer uma verdadeira rede.

Um núcleo de filosofia não pode, nem deve, ter fronteiras.

Com as melhores saudações,
O Sexto Empírico.

Para mais informações contactar:
sexto-empirico[at]hotmail.com

Le lac d'Annecy, Cézanne, Paul



Pura contemplação.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Os assassinos entre nós, Simon Wiesenthal (II)

Linha Geral: A segunda parte de um texto bem recheado, com considerações sobre a obra Os Assassinos Entre Nós, de Simon Wiesenthal. Qual a visão sobre a eutanásia? Das vidas que não o merecem ser. As questões finais, que pairam, acerca do direito à vida e à "mentira" de Auschewitz, convidam o leitor a indagar-se na profundidade do seu ser. 

Outro ponto forte do livro é a eutanásia que visava fundamentalmente os velhos, os atrasados mentais e os doentes incuráveis alemães. A operação dava pelo nome de Vernichetung lebensunwerten Lebens (destruição-de-vidas-que-não-merecem-viver), cujos eixos de execução desta máquina eram: Hadamar, Somenstein, Castelo de Hartheim e Castelo Grafenegg; mais tarde a operação estendeu-se aos diversos campos de concentração espalhados pela Alemanha e pela Áustria sob o código 14f13 agindo sobre os doentes inválidos dos campos de concentração. Como tarefa, os médicos observavam as fotografias e as fichas dos doentes designados por «comedores inúteis em potência», para se decidirem quais é que deveriam matar. A designação de «comedores inúteis» surgiu da teoria nazi de que aqueles que consumiam bens valiosos e nada produziam deveriam morrer, sendo a eutanásia uma opção quase ética e inicialmente reservada aos alemães.
A título de curiosidade, existe um pós-escrito no final do livro que relata um passeio numa aldeia próxima do campo de concentração de Lwow, numa tarde de Setembro de 1944, entre o S.S. Rottenführer Merz e Wiesenthal. Neste passeio Merz questiona Wiesenthal sobre o que diria se chegasse à América e lhe perguntassem acerca daquilo que viu nos campos de concentração, ao que Wiesenthal responde que diria a verdade. Perante esta resposta, Merz confidencia que, mediante os episódios que diariamente o circundam, acorda muitas vezes a questionar-se se aquilo que experienciou nos campos de concentração é realidade ou é um sonho. Merz adverte a Wiesenthal que se comunicasse aquilo que se sucedia nos campos de concentração, ninguém lhe daria crédito pela história horrível que contara, e provavelmente interná-lo-iam num manicómio.
Desta vez resolvemos deixar algumas questões em aberto, baseadas nesta obra, para serem discutidas e, assim o espero, comentadas pelo leitor, e essas questões são: A) Deverá a engenharia genética utilizar seres humanos para o seu “progresso”? B) Com que poderes e motivos é que podemos decidir sobre a vida do outro e, consequentemente, pôr-lhe um fim? C) Poderá alguém ser acusado de genocídio, quando apenas estava a cumprir ordens superiores e cuja vida dependia do cumprimento dessas mesmas ordens? D) Porque é que uma verdade tão horrível, como aquilo que se passava em Auschewitz, pode ser considerada uma mentira?


Fernando de Almeida

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Porque esqueceram o humanismo? (A sobrevalorização do pensamento técnico-científico)

Linha Geral: Será o inumano a condição do homem moderno? Tudo se justifica à luz de uma racionalidade técnico-científica que tende a alienar a dimensão verdadeiramente humana do humano em prol do cálculo permanente, da coisificação permanente do homem. E, por isso mesmo, as políticas de distância, os planos, a "troika", em substituição de uma prática de proximidade que valoriza o singular e único.  

O alerta para as nefastas consequências da excessiva racionalização da sociedade contemporânea percorreu quase (senão mesmo) todas as correntes filosóficas do século precedente. Este alerta foi feito pelos mais diversos filósofos. Filósofos que vão desde Husserl até Lukács, passando por Weber, Heidegger, Adorno e Horkheimer; podendo até ser também encontrado nos filósofos mais tardios, tais como Marcuse, Jonas, Ellul, Foucault, Habermas, e até mesmo em Virílio, Sloterdijk e Zizek. Para a Filosofia, a importância do problema da racionalização excessiva é evidente. Mas até que ponto aproveitou a sociedade contemporânea a problematização filosófica da racionalidade técnico-científica?
Numa análise dos fundamentos do pensamento económico sob o qual se sustenta toda a sociedade contemporânea (tal como no texto que o David Santos escreveu sobre Latouche se demonstra) encontrar-se-á esta racionalidade técnico-científica. O mesmo tipo de racionalidade que preza pela objetividade, pelo facto, pela eficiência, pelo cálculo frio e maquinal. Encontrar-se-á a mesma racionalidade que toma o humanismo como um subproduto; que o caracteriza como o empecilho (constrangimento) aos desenvolvimentos técnico-científicos. Veja-se a título de exemplo o caso das polémicas em torno dos estudos que envolvem células estaminais na Europa e nos Estados Unidos.
Contudo (e paradoxalmente) é sob esta mesma racionalidade que se edifica todo o sistema social no mundo ocidental. “Não sejam piegas…” diz-se em Portugal, como quem diria: “Não comprometam a eficácia do sistema económico técnico-científico com as vossas queixas, com esses vossos mesquinhos sentimentos humanos”. “Deixem de apelar a um humanismo já ultrapassado, estragam a eficácia do método pela razão escolhido”. E Portugal não é o único, pois é esta mesma racionalidade quem pretende justificar as decisões tomadas por esta Europa fora. Relembrando as célebres palavras de Husserl em A Crise das Ciências Europeias, parece que – passados quase cem anos – ainda é caso para se dizer que “Meras ciências de factos criam meros homens de factos”.
É flagrante esta deificação da racionalidade técnico-científica pela política contemporânea. Ou o que é pior: é flagrante esta deificação da racionalidade técnico-científica na política contemporânea. E é aqui onde se encontra o cerne da questão, pois a essência do problema não está apenas no carácter inumano deste tipo de racionalidade, ela encontra-se também no mau uso que dela é feito.
Na retórica política é agora comum o apelo a um moderno pathos pela eficiência. Veja-se a título de exemplo o conhecido “choque tecnológico” da propaganda política do governo socrático. O apelo à eficiência científica tornou-se no paradigma central das ideologias contemporâneas. A racionalização dos meios pela tendenciosidade económica transforma consigo os fins almejados por um governo. Interessa hoje cumprir com os números, não cumprir com os homens. A crise que se vive em Portugal não é apenas uma crise económica, é também – e sobretudo – uma crise do humanismo.

Ângelo Milhano.

domingo, 1 de abril de 2012

Os assassinos entre nós, Simon Wiesenthal (I)

Linha Geral: Os assassinos entre nós, Simon Wiesenthal. De que trata a obra? Qual apostura de Wisenthal em relação a Eichemann e seu julgamento? O 'pedigree' da raça humana, a 'super-raça' deve eliminar as demais. O que foi a ODESSA, e que importância esta última tinha nas fugas? Estas e outras considerações no seguinte texto, repousado na obra e biografia de Wiesenthal.

Os assassinos entre nós, Simon Wiesenthal (n. 31/12/1908 – m.20/09/2005) 
Esta obra é organizada de uma forma um tanto ou quanto invulgar; intercalada entre o perfil e as narrativas de Simon Wiesenthal, tendo sido essas narrativas transmitidas a Joseph Wechsberg que as inscrevera neste livro. 
Os conteúdos existentes na obra descrevem a vida de Simon Wiesenthal durante a Alemanha nazi, a sua posterior queda e, por último, a perseguição levada a cabo por Simon aos criminosos nazis. De entre estes, Simon dá especial destaque a Adolf Eichmann, que durante o julgamento afirmava que não era culpado por nenhum dos crimes que era acusado pela razão de que apenas estava a cumprir ordens, e que as cumpriria mesmo que isso significasse enviar o pai para a câmara de gás. O curioso acerca de Eichemann, segundo Wiesenthal, é que nunca teve mazelas com judeus e, para grande estupefação, ele era palestiniano alemão, membro dos Templários. Outro criminoso referido é Josef Mengele, médico do campo de concentração em Auschewitz entre 1943 e 1944, sendo o responsável pela realização de experiências em prisioneiros judeus com vista ao aperfeiçoamento da raça ariana. Na vida de Mengele constam dois títulos académicos, o de doutor em filosofia (Universidade de Munique) e o de doutor em medicina (Universidade de Francforte), mas que lhe foram posteriormente retirados por ambas as universidades. O motivo da atenção por esta personagem advém da sua teoria de que o ser humano, tal como um cão, possui uma espécie de pedigree. Arraigado nesta crença, Josef acredita na criação de uma «super-raça» e de que as raças inferiores deveriam ser exterminadas, em função disso desenvolveu um programa de procriação desta «super-raça», selecionando jovens que obedeciam aos cânones da raça ariana para serem encaminhados para campos de procriação. Na sua fuga da Alemanha, Josef foi ajudado pela organização O.D.E.S.S.A., passando pela Argentina, Grécia, Brasil, Paraguai e pelas colónias alemãs do Paraná Superior. Pensa-se que Mengele se fixou na selva brasileira, que faz fronteira com o Paraguai, entre Puerto de San Vicente, ou entre a ligação rodoviária Assunção – São Paulo, e a fortaleza Carlos António Lopéz. 
A organização atrás mencionada foi responsável pela criação da rota de Odessa, um passaporte de saída para os criminosos da elite das S.S. e da Gestapo; cujas vias de fuga eram organizadas pela BSHA (Ministério do Interior das S.S., que englobava os serviços de espionagem e contra-espionagem). As vias tinham como destino: Espanha, Médio Oriente, Argentina e Paraguai. A rede contava com a ajuda de correios, nomeadamente, camiões de mercadorias para saída do país além dos transportes ilegais; os criminosos nazis recorriam ainda aos mosteiros e às estalagens como meios para passar a fronteira. Este transpor da fronteira era facilitado pelas boas relações entre a Odessa e as embaixadas, dando o exemplo da afinidade de relações entre a Odessa e a embaixada espanhola presente na década de 40. 
(cont.) 

Fernando de Almeida

domingo, 25 de março de 2012

As 11 ideias de Serge Latouche

A Linha Geral: Do discurso e entrevista a Serge Latouche. O crescimento económico é um fim em si mesmo? Não será esta ideologia ilógica? Este obsoleto e perigoso pensamento, na sua aplicabilidade,  poderá ter como consequência a perda de "bela experiência", recheada de valores. O Homem não é o fim de uma linha evolucionista. Porém, de acordo com os paradigmas vigentes, corre o sério risco de o vir ser. Temos aqui apresentada uma nova e revolucionária visão acerca da organização dos "tempos". Que nos propõe, sucintamente, o pós-materialismo? Temos de largar fantasmas e fantasias, temos de desmistificar promessas que nos foram feitas.


Serge Latouche, tal como Paul Krugman, esteve em Portugal. Foi há bem pouco tempo (aproximadamente três semanas). A celeuma, infelizmente no meu entender, não foi tanta quanto aquando da vinda do nobelizado – normal, dirão uns, triste, direi eu.
Convidado pela Fundação Calouste Gulbenkian, Latouche deu ainda uma entrevista para o jornal Público, publicada a 19 de Março. Foi a partir desta entrevista que coligi estas onze ideias de Latouche nesse espaço arrogadas:  
1) A lógica do crescimento económico pelo crescimento económico adquiriu contornos religiosos. Os economistas assumiram, de forma dogmática, que a dinâmica das relações sociais deve orbitar em torno desse valor – o crescimento. Assim, o que Portugal precisa é de crescer; o que a Europa precisa é de crescer; os Chineses não podem crescer se os Europeus e os Americanos não crescerem também... e, infelizmente, assim vai o mundo. Justificam-se todas as ideologias e colaterais excessos, demagogias e patifarias, à conta desta crença económica;
2) Para que o dogma do crescimento económico se conserve torna-se imprescindível multiplicar necessidades, i. é, criar constantemente falsas necessidades, de modo a que tenhamos de trabalhar mais, de produzir mais, de nos cansarmos mais, de nos iludirmos mais, de endoidecermos e embrutecermos cada vez mais, enfim, de desperdiçarmos cada vez mais a experiência estética do estar-aí, do estar-no-mundo (a filosofia é, em parte, o convite para essa bela experiência);
3) Não pode haver crescimento ilimitado com recursos limitados - lições de lógica elementar que a filosofia no secundário já devia ter ensinado (alguém que não está a fazer o seu trabalho!);
4) “Se não mudarmos o sistema, caminharemos para o desaparecimento da humanidade”. Por sua vez, para mudarmos o sistema temos de alguma maneira transitar de um paradigma antropocêntrico para um paradigma biocêntrico; de uma ética especista para uma ética ecológica;  
5) A crise financeira é, antes de ser financeira, económica. A crise económica é, antes de ser económica, civilizacional. Foi o próprio modelo económico assente na promessa ou na pseudo-racionalidade do crescimento ilimitado que deu o poder que hoje detêm os detentores do capital financeiro (por oposição ao capital industrial); “a ilusão do crescimento [provocou] a bolha financeira”; o capital financeiro tão só se alimenta desta promessa da economia. Por sua vez, a crise económica é uma crise civilizacional onde o que vale é o ter, é a possessão, é o materialismo grosseiro;  
6) Tornou-se imprescindível, por todas as razões aqui aludidas, fazer uma revolução. Uma revolução cultural, de mentalidades; isto antes dos bombos, das espingardas e dos cravos. É preciso dar um passo em frente na história, forjar a tal sociedade pós-material (pós-desenvolvimento) onde o que importa é sustentar/garantir racionalmente um minimum material (traduzido em um minimum universal de alimentos, de habitação, de trabalho, de Internet...) de modo a que as pessoas, tendo garantido esse minimum material, possam se dedicar ao que realmente importa: a amizade, o amor, a arte, a liberdade, o diálogo, enfim, todos os valores que realmente importam e que realmente têm por efeito a criação da tal sociedade de bem-estar (que a economia tanto prometeu, ora, com a sua promessa de abundância indefinida, ora com a sua “mão invisível”, ora com a sua “luta de classes”…);
7) É preciso "descolonizar o nosso imaginário". A felicidade, a sociedade de bem-estar, não está no ter coisas, i. é, bens materiais. Temos que lidar positivamente com o facto de não sermos eternos e que a “mão invisível” do progresso humano/tecnológico não nos conduzirá a uma espécie de sociedade pós-humana, pós-histórica, onde satisfaremos todos os nossos desejos sem prejudicarmos os outros (tanto os outros humanos, como os outros não humanos, como todo o ecossistema – a “teia da vida”); 
8) A lógica do crescimento diz que é preciso indefinidamente crescer, nunca pararmos de crescer, isto porque, como é evidente, nunca paramos de consumir. Mas este raciocínio é obviamente falacioso porque tenta justificar o irracionalismo ligado ao dogma, ao aspeto religioso do crescimento pelo crescimento, contra uma verdadeira e desmistificada racionalidade onde trabalho e distribuição dos seus produtos têm como finalidade garantir um mínimo de bem-estar universal/global progressivamente sustentado e uma vida realmente digna;
9) "É preciso, antes demais, trabalhar menos". Temos de começar a pensar em como produzir tempo livre – este deve passar a ser o nosso grande objetivo económico. Como é evidente, para que possamos produzir tempo livre temos de ter, mais uma vez, garantido o tal minimum material dado pelo antecedente tempo de trabalho (mas, é precisamente esta inversão de valores, de objetivos, do tempo de trabalho para o tempo livre, que é verdadeiramente revolucionária);
10) Temos que mudar o paradigma, ter como valor económico não o crescimento pelo crescimento, mas sim, a "abundância frugal". A produção, o trabalho social, deve estar, como é de bom senso, subordinado às necessidades indispensáveis à sociedade mas não ao crescimento, à “produção infinita”; 
11) A sociedade precisa de se defender dos "ecofacismos" e/ou ecototalitarismos que podem despontar depois de, eventualmente (ou necessariamente), termos de sair da sociedade de consumo à força. Enfim, é preciso continuar a defender a democracia, a autonomia, a razoabilidade, a liberalidade, isto independentemente da revolução pelo qual tivermos de passar.   

David Santos.