domingo, 24 de março de 2013

Ensaio sobre a Cegueira, José Saramago (Primeira parte)


Descendente de agricultores, José Saramago nasceu em Azinhaga, província do Ribatejo, a 16 de Novembro de 1922, embora oficialmente esteja registado no dia 18. Antes de atingir os dois anos de idade os seus pais mudaram-se para Lisboa, foi na capital que fez o ensino secundário, não progredindo nos estudos por dificuldades económicas. Em 1947 publica o seu primeiro romance: Terra do Pecado. Para além de escritor, Saramago também teve outras ocupações, como crítico literário na revista Seara Nova ou os anos em que trabalhou na redacção do jornal Diário de Lisboa como comentador político. Na sua vida mais íntima casou com Pilar del Rio em 1988. Precisamente dez anos mais tarde, foi-lhe atribuído o Prémio Nobel da Literatura. E a 18 de Junho de 2010 falece.
A narrativa da presente obra começa num cenário corriqueiro da cidade, uma fila de trânsito parada num semáforo. Quando o semáforo passa a verde o carro que está no primeiro lugar da fila não avança, pensa-se que o carro esteja avariado, como é natural nestas situações; aproxima-se então um grupo de curiosos para saber qual era a avaria, chegam junto ao vidro do lado do condutor para saber qual o motivo de estar parado, o condutor responde que cegou de repente. Do aparato de pessoas que se formou em torno do carro, há uma que se oferece para levar o cego a casa. O voluntário lá entra dentro da viatura e lá leva o cego até casa. Quando chegam a casa do dito cego (denominado de primeiro cego pelo autor), o “bom samaritano” disponibiliza-se para ficar a tomar conta do invisual até que a mulher deste chegue do trabalho. O cego fica desconfiado com tanta cortesia e diz que prefere esperar sozinho até que a sua mulher chegue; enquanto está à espera, o cego deambula pela casa e tomba o vaso que estava em cima da mesa e apanha as flores e os cacos e coloca-os no lixo, deixando como marca deste acontecimento um monte de terra. Vai-se deitar no sofá e imagina-se a jogar à cabra cega e cada vez que abria os olhos via o mundo tal como ele era, ao mesmo tempo, pensava que a cegueira podia ser suportável desde que houvesse uma recordação boa antes de começar a ver o mundo de negro que cobre os seres; porém ele não via o seu mundo coberto por um negro, mas antes, por um branco que engole todas as cores.
No momento em que a mulher do primeiro cego chega a casa depara-se com um monte de terra no chão, o que constitui o motivo para ralhar com o marido que estava deitado no sofá, ele alega que está cego, ela retruca dizendo-lhe para se deixar de brincadeiras, mas ele insiste até ela começar a acreditar. Ela repara que o marido tinha a mão ensanguentada devido à recolha dos cacos; vai buscar a caixa de primeiros socorros para tratar a mão. Posteriormente a isto, os dois decidem marcar uma consulta no oftalmologista. A mulher pergunta ao marido pelas chaves do carro e ele responde-lhe que não as tinha. Talvez o “bom samaritano” se tivesse esquecido de as entregar ou elas estivessem na ignição. A mulher foi à procura da viatura nas imediações do prédio, como não o conseguia descobrir, pensa de imediato que o carro tinha sido roubado e resolve chamar um táxi para levar o marido ao consultório. O marido houve o som de um táxi, pergunta o porquê do táxi; a mulher disse-lhe, em tom irónico, que talvez o “bom samaritano venha amanhã devolver as chaves”. Os dois vão de táxi até ao consultório.
Ao chegarem à sala de espera do consultório, repararam num zarolho de venda preta, numa criança estrábica acompanhada pela mãe e uma rapariga de óculos escuros que de imediato protestaram, exceto o velho com a pala no olho, assim que o médico chama o primeiro cego e a mulher que tinham chegado muito depois. O médico para acalmar os ânimos, justificou a sua escolha pela urgência do caso; nessa altura todos se acalmaram e deixaram o primeiro cego e a mulher entrar dentro do gabinete do médico. Aí o médico começou a examinar o paciente, diz que a vista parece estar de perfeita saúde e de que é estranho que alguém cegue assim de repente, e ainda mais estranho é o facto de o paciente nunca ter usado óculos e de ser ainda jovem para ter aquele género de problema, afinal só tinha 38 anos de idade. O médico para se informar melhor acerca do problema telefona para um colega, este diz-lhe que nunca teve perante si semelhante caso e afirma desconhecer, mediante os sintomas que lhe são apresentados, o que será a doença. Assim, o médico aconselha o doente a fazer exames no hospital. Curioso com este caso, o médico vai para casa vasculhar nos seus livros de medicina sobre o que será este tipo de doença, à medida que ele vai procurando e que a noite avança o médico sente cada vez mais dificuldade em ver o que está escrito nos livros e o mesmo se sucede quando olha para as mãos até que subitamente deixa de ver seja o que for e fica mergulhado num imenso mar branco, sai do escritório e vai para a casa de banho procurando fazer o mínimo chinfrim para não acordar a mulher, de seguida vai-se deitar. No outro dia, contou à mulher que estava cego e que contraiu a doença de um paciente que tinha ido ao seu consultório por causa de uma cegueira que teve de repente. Foi este acontecimento que despoletou no médico o dever de alertar o ministério da saúde para o facto de existir uma doença contagiosa de cegueira. Telefona para o ministério, mas não lhe dão qualquer importância até ao momento em que começam a surgir novos casos, os primeiros portadores da doença são exatamente os clientes do médico. Então o governador do município decide colocar todas as pessoas doentes ou com suspeita de doença da «cegueira-branca» num manicómio abandonado.
À luz destes acontecimentos o ministério decide recolher todos os doentes e suspeitos desta doença para os colocar no manicómio. Quando aí chegam são-lhes transmitidas ordens, como o facto de que no caso de haver qualquer incêndio não receberiam qualquer ajuda do exterior ou no caso de que não receberiam qualquer ajuda médica e, ainda, informações relativas ao horário da alimentação e onde é que esta iria ser deixada para recolha dos doentes; tudo isto era transmitido do exterior para aqueles que estavam dentro do edifício através de um altifalante que aí se encontrava. De entre estes doentes, contam-se o oftalmologista, o primeiro cego e a sua mulher, a rapariga dos óculos escuros que na altura em que cegou estava a ter relações sexuais com o velho da venda preta , o velho da venda preta e a empregada do hotel que encontrou a rapariga de óculos escuros nua em cima da cama −, e o polícia que acompanhou a rapariga dos óculos escuros à casa dos pais −, o rapazinho estrábico que tinha estado no consultório do médico acompanhado pela mãe , o ladrão que tinha roubado o carro ao primeiro cego e o polícia que o prendeu, e, para terminar, temos o taxista que acompanhou o primeiro cego ao médico. Além destes, temos a mulher do médico que para acompanhar o marido fingiu estar cega. A mulher do médico resolve explorar as instalações, de seguida foi dormir. No dia seguinte, a mulher do médico foi ensinar aos cegos qual o caminho para a casa de banho, conduzi-os em fila indiana pelo corredor, quando repentinamente se houve o gemido de dor do ladrão do automóvel que seguia por detrás da rapariga de óculos escuros. Ela acertou-lhe com a agulha do sapato na perna, logo abaixo da virilha, pela razão de que o ladrão estava a apalpar-lhe os seios; a mulher do médico diz para todos aguardarem por ela enquanto vai buscar qualquer coisa para fazer o curativo à perna do desgraçado.
Depois das necessidades fisiológicas feitas, os cegos dirigem-se novamente para a camarata (segunda direita) e deitam-se nas respetivas camas; ouviram o altifalante que lhes indicou que as refeições estavam no hall de entrada, a mulher do médico foi buscar as refeições da sua camarata e distribui-as pelos companheiros da camarata. Chegada a noite todos dormem, exceto o miserável que ficou com a perna a sangrar e que não conseguindo dormir sai do manicómio aproximando-se do perímetro de segurança que estava guardado por militares. Estes avisam-no para ele voltar para trás, mas ele não respeita as ordens e continua a andar na esperança de que estes lhe arranjem apoio médico, contudo engana-se e acaba por ser abatido. No dia seguinte, quando todos acordam dão pela falta do companheiro, nessa altura começa a ouvir-se a voz do altifalante que diz lamentar ter usado a violência e informa a todos os presentes que devem ir recolher o corpo e enterra-lo no pátio interior, a mulher do médico vai buscar o corpo e pede uma enxada e uma pá ao sargento, que se encontra no meio dos outros militares a proteger o perímetro de segurança, que acede ao requisito. Posteriormente, a mulher leva o cadáver para o pátio onde ele é enterrado. Logo depois, ouve-se novamente o altifalante a notificar os doentes para virem buscar as refeições. Os soldados, como é habitual, levam as refeições até ao hall de entrada quando os cegos avançam repentinamente para eles na ânsia de conseguirem uma refeição, os soldados nervosos começam a disparar sobre os cegos que deles se aproximam e saem dali a correr. Ouve-se o altifalante a lamentar o sucedido. Mas desta vez, como os cegos pertenciam à terceira camarata direita coube a essa mesma camarata enterrar os cegos, contudo, estes mortos vão continuar onde estão até o dia do incêndio. A partir desse dia os cegos tinham que sair à rua até perto do perímetro de segurança para vir buscar as refeições.
Mais tarde para piorar a situação chegam ainda mais outros cegos, dos quais se forma um grupo de cegos maus que tenta ao máximo tirar partido da situação pois havia entre eles um cego com uma arma de fogo, que ficou de imediato como chefe do bando, enquanto os restantes membros estavam munidos com os ferros da cama. A primeira coisa que este grupo fez quando chegou foi apoderar-se de todas as refeições que deviam ser entregues a todas as camaratas do manicómio, trocando-as por bens que os restantes doentes traziam consigo. Os únicos bens que permaneciam, sem os bandidos saberem, era o rádio do cego com a venda preta que o utilizava para saber das notícias do exterior e, por vezes, era usado pela rapariga de óculos escuros para satisfazer o seu desejo de ouvir música. Além deste objeto, ficou a tesoura que a mulher do médico tinha retirado da mala para pendurar na parede.





Fernando de Almeida

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Só, António Nobre


A obra que partilharemos convosco realizada em 1892 por António Nobre. Nobre nascera na cidade do Porto a 16 de Agosto de 1867; vai cursar direito em Coimbra; vendo a sua empresa frustrada, segue para Paris inscrevendo-se na Universidade de Sobornne em 1890 onde conclui o tão almejado curso em 1893; em 1900 no dia 18 de Março falece na Foz do Douro devido à Tuberculose que já vinha minando a sua saúde desde o término dos estudos universitários. Da sua personalidade, damos destaque à sua figura extravagante e dândi, que se denotarão nalguns dos poemas que iremos enunciar. A acrescentar, este poeta foi um dos protagonistas do neogarrettismo (mais conhecido por neoromantismo) cronologicamente situado no último quartel do século XIX que presta homenagem aos românticos, em especial os introdutores do romantismo português como, por exemplo, Almeida Garrett. Ideologicamente nacionalista trata de recuperar a literatura popular pela convicção de que ela é a fonte genuína da cultura portuguesa dando-lhe a pedra toque do romantismo como os sentimentos de orfandade e perda de identidade; que se enquadram na escola decadentista. Esta escola literária tinha como preferência o simbolismo; por sua vez, esta doutrina foi formulada em finais do século XIX em ataque direto aos parnasianos –  que defendiam que a obra de arte vale pela sua qualidade de imitação da realidade exterior –, contrapondo com a concepção de que a obra de arte vale por si mesma, pelos sentimentos, sensações e pensamentos que conseguem despertar.
Abordando a obra propriamente dita, é mediatizada pela memória, no entanto, não a podemos minimizar a uma simples autobiografia escrita por um tuberculoso, como iremos desvelar ao longo deste pequeno texto. No momento em que esta obra chegou às mãos do publico; causou grande estupefacção pelo provocante narcisismo, voluntário infantilismo e prosaísmo aparente de certos motivos e a coloquialidade de certas formas a par de chocantes componentes imaginíficas (o funério, o macabro, o mórbido) e de liberdades estrófico-versatórias ainda escassas em obras nefelibatas – que se tipificam pelos aspetos intermotivados e coesos que estão presentes na obra e a que o autor permanece fiel. Aprofundando ainda mais o nosso estudo, apesar de António Nobre anunciar no início desta obra “que é o livro mais triste que há em Portugal” (“Memória”), e embora a tristeza seja o sentimento perseverante em toda a obra, ainda existe uma centelha de felicidade que brilha na infância vivida no norte de Portugal, pelo relembrar das gentes do Douro interior como expressa o poema: “Para as raparigas de Coimbra”, sobressaindo a vida boémia, típica do ambiente estudantil experienciado em Coimbra, a alegria dos arrais a companhia das moçoilas que dançam numa euforia que convive com um cenário macabro e irónico de doença e morte «como se o autor nos quisesse alertar que a vida e a morte andam de mão dada e que constituem um eterno ciclo» o que, também, demarca um certo pessimismo como o demonstra “Baladas do Caixão”. Já noutro poema (“Memória”), exibe uma certa nostalgia pela infância, mas sempre com o prenúncio de destino fatal insurgido pelas moiras na mesma composição do poeta afirma-se como filho de Virgílio, destacando-se como um poeta nato, revelando ainda a sua faceta de extravagante e sonhador inconsequente, sendo esta última face atestada no poema: “Na praia lá da Boa Nova”. E que convive com o seu lado saudosista (“Saudade”), evocando poetas do passado, como Virgílio e Garrett. Ainda fazendo referência a este último autor temos “Viagens na Minha Terra”, descrevendo cenários pitorescos portugueses, como sucede no soneto: “Poveirinhos! Meus velhos pescadores”.
Iniciando a nossa análise formal da obra, 1898 Nobre introduz uma ordenação por sessões recriando a vida de uma personagem: sendo as três primeiras constituídas por um único (o proémio “Memória”; “António”; e “Lusitânia no Bairro Latino”) a que se seguem as restantes sessões, já constituídas por diversos textos (“Entre Douro e Minho”; “Lua Cheia”; “Lua Quarto-Minguante”; dezoito “Sonetos”; “Elegias”; e o longo díptico “Males do Anto”). Sobressaindo ainda o fato do poema “Memória”, que até à primeira data de edição (1892) estava estruturado num soneto, sofre uma alteração na segunda edição (1898) passando a estar disposto em dezoito dísticos alexandrinos.
Passamos agora a confrontar o nosso amigo com a seguinte questão, e tendo como exemplo toda uma geração que vai desde os pré-românticos até aos neoromânticos, poderá a morte, assim como tudo aquilo que gira em torno dela, servir de eixo motriz para a criatividade? E porquê? E de que forma?  


Fernando de Almeida.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Testamento Político, D. Luiz da Cunha


O autor desta obra, manuscrita no século XVIII, sugere a D. José, na época ainda príncipe, que tome para futuro regente do reino Sebastião José de Carvalho e Melo (futuro Marquês de Pombal), projetando as matrizes pelas quais se iria nortear a administração pombalina. Debruçando-nos de forma breve, agora nos dados biográficos do autor, D. Luiz da Cunha nasceu em Lisboa a 25 de Janeiro de 1662. Formando-se em direito canónico em 1686; em 1696 inicia a sua carreira diplomática em Londres como embaixador em Portugal; falecendo em Paris a 9 de Dezembro de 1740.
Nesta obra, o autor adverte para a importância do bom governo da nação, da importância da autoridade real ser reforçada perante a autoridade do ministro para evitar a diminuição de crédito e prejuízo do monarca perante os estrangeiros, recorrendo ao exemplo o duque de Malborough que se levantou com o poder que era devido a rainha Ana de Inglaterra. Além disso, existe ainda a analogia do rei com o pai de família; qual pai que se mostra regrado e em que cada um dos seus domésticos exercem as funções que lhes competem, sendo exemplo disso os secretariados pelos quais se divide o poder; em que além destes deveres, o rei deve aparecer em público afim de corresponder ao amor do povo, acompanhado das suas tropas com o intuito de mostrar a sua autoridade, de procurar manter a paz para não perturbar a economia e de vigiar a sua riqueza e de controlar os seus gastos, estando estes pontos ligados a dois eixos que também se encontram interligados entre si: a justiça e o bom governo do país. Continuando ainda a falar de medidas, o rei deve visitar as suas terras afim de as controlar, por essa razão deve mandar construir vias de comunicação, sendo a sua utilidade alastrada à produção e, inevitavelmente, ao comercio. A respeito de economia, o autor sugere que a cobrança de impostos não só deve ser feita às heranças como também à igreja, pois todos devem contribuir para o Estado sem exceção. Quanto aos incentivos, recomenda-se a retirada das terras a quem não as cultiva para as entregar nas mãos de quem se comprometa a cultiva-las; além da promoção e mecenato do produto nacional exercida pelo rei, tendo como exemplo a área do vestuário, em que o rei se vestia apenas com aquilo que fosse produto português mostrando o seu desagrado por aqueles que usassem vestuário de origem além-fronteiras, para que dessa forma todos se sentissem compelidos a usar aquilo que era produzido pelo nosso país, além de ir contratar os melhores artesãos estrangeiros para a manufatura de tecidos, como o fizeram o Czar da Moscóvia e el-rei Guilherme III da Inglaterra.
Passando agora para questões de ordem social. Talvez, uma das grandes propostas que este autor fez foi: por fim a distinção entre cristão-velho e cristão-novo dando a possibilidade de livre exercício da prática religiosa, sendo que isto não só seria bom para a economia do país como para o aumento demográfico, porque assim existem mais pessoas para produzir. Outro ponto é a obrigação dos corregedores e juízes a entregar todos os meses ao presidente do paço ou ao regedor das justiças uma lista das pessoas que vivem na sua jurisdição e das suas ocupações para não consentirem na entrada de marginais, como acontece na Holanda. Seguindo este rego, exige-se uma maior celeridade da justiça, pois certos casos que são demorosos tanto podem ser prejudiciais para vítima como para o culpado, não só por razões de perda de tempo como de custos do processo; a acrescentar, temos ainda um maior controlo dos rendimentos dos agentes da justiça, sendo que em caso de corrupção, os mesmos devem ser passíveis de sofrer coima e prisão efetiva, sendo a severidade da punição equivalente à dimensão do crime.
Outros assuntos com que nos deparamos na leitura da obra, são as relações políticas e comerciais de Portugal com outros países.  
Podemos concluir que foi graças a estrangeirados, como D. Luiz da Cunha, que se introduziram em Portugal, obscurecido pela ignorância e fideísmo vivido até ao Marquês de Pombal, novas ideias e formas de pensar, como grande exemplo disso é o fim da distinção entre cristãos-velhos e cristãos-novos, abrindo portas para a liberdade da prática religiosa e, com isso, a laicização do Estado. Mais, com a lista das ocupações realizada pelos corregedores e juízes e que era entregue mensalmente ao presidente do paço e ao regedor das justiças, abre-se a possibilidade para a criação dos censos. Porém ainda há muito a fazer em relação à justiça e à impunidade daqueles que dela conseguem escapar. Com atenção a isto e com a noção daquilo usualmente acontece na justiça portuguesa, o que é que o leitor acha que poderia ser feito para melhorar o funcionamento do sistema? Além disso, será que existe a necessidade do controlo das atividades de cada indivíduo para garantir a harmonia social, ou será que isso iria comprometer a (re)inserção do sujeito?
Despeço-me agora desejando ao nosso amigo cibernauta uma boa entrada de ano, pois prosperidade é como dizia Zeca Afonso naquela famosa canção: “Eles comem tudo…”, por outro lado também não podemos ser tão pessimistas, visto que ainda temos como alternativa emigrar.    

Fernando de Almeida.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Lógica, Immanuel Kant (quarta parte)


Voltando ao conhecimento humano, ele é discursivo, isto é, ocorre mediante representações em que aquilo que é comum entre diversas coisas funciona como princípio cognitivo, recorrendo a caraterísticas. Depreendendo-se que reconhecemos as coisas pelas suas caraterísticas e do reconhecer advém o conhecer. E o que é que o autor define como caraterística? A caraterística é apenas uma parte de um todo que constitui o conhecimento da coisa. Sendo dividida em duas vertentes: a) a representação em si mesma e b) como princípio cognitivo de uma coisa. Explicando este último ponto de outro modo, o princípio cognitivo de uma coisa é a uma parte daquilo que constitui a coisa. E aqui podemos encontrar um duplo uso: o uso interno que consiste na dedução, partindo das caraterísticas para chegar ao conhecimento das próprias coisas, e o uso externo, que se baseia na comparação de caraterísticas e das próprias coisas obedecendo às leis da identidade e da diversidade.
Existem ainda diversas classificações para essas caraterísticas. Entre elas, temos as analíticas que se limitam a conceitos parciais do conceito real (que já são pensadas pelo sujeito, pois o conceito já está dado, não gerando qualquer ampliação do nosso conhecimento), enquanto que as caraterísticas sintéticas são o conjunto de conceitos parciais para formar um conceito total possível (só a partir da síntese das várias partes se consegue formar um conceito total possível, desse modo, existe um alargar do nosso horizonte de conhecimento). De seguida, temos as caraterísticas coordenadas que consiste na representação imediata da coisa; enquanto as subordinadas uma caraterística da coisa só é representada por meio de outra. Caraterísticas afirmativas, é o que a coisa é; caraterísticas negativas, é o que a coisa não é. Nas caraterísticas importantes e frutíferas, o que importa é o número e importância das consequências oferecidas pelo princípio cognitivo; ao contrário daquilo que se passa com as caraterísticas vazias e irrelevantes. E, por último, as caraterísticas suficientes e necessárias; suficientes, pois uma coisa é distinta de todas as outras, e necessárias têm que estar sempre na coisa representada; em antigónia às caraterísticas insuficientes e contingentes.
Também outro tema que temos vindo a desenvolver ultimamente é a verdade. A verdade é uma propriedade objetiva do conhecimento, porém se tem por fonte um sujeito é subjetivamente um assentimento, que se divide em duas espécies: a incerteza, que se tipifica pela causalidade e da possibilidade do oposto – como a opinião e a fé –, e a certeza que está associada à consciência da necessidade – saber. A partir das costuras já traçadas, temos três modos de assentimento: opinião, fé e saber. Começando pela opinião, ela é um julgar problemático; a fé é um julgar assertórico; e o saber um julgar apodíctico. Sendo o opinar apenas a consciência de julgar problemática; sendo o assertórico algo que não é necessário e apenas válido para o sujeito, por último o saber que é geral e objetivamente válido, ou seja, que é válido para todos. Na área da opinião o fundamento cognitivo, sem suporte subjetivo nem objetivo suficientes, apenas pode ser visto como juízo provisório e nada mais do que isso. No plano da fé, o assentimento é objetivamente insuficiente, por contrapartida, é subjetivamente suficiente e diz respeito a objetos de que nada se pode saber e aos quais nem sequer se atribui probabilidade, o assentimento é livre e apenas necessário num propósito prático que inclui razões morais. O saber é um fundamento cognitivo, que é objetivamente e subjetivamente suficiente, é ou empírico ou racional, pois advém de duas fontes de conhecimento: a experiência e a razão. Ambas podem ser imediata ou mediata, ou seja, ou não necessita de nenhuma prova, porque é imediatamente certo ou indemonstrável, ou carece de prova. Sendo que as provas podem ser de natureza direta ou indireta, isto é, apagógicas. Fazendo agora uma distinção entre as duas: a certeza empírica é ou originária (experiência própria) ou derivada (consciência alheia, frequentemente discriminada por certeza histórica); certeza racional distingue-se da empírica pela consciência de necessidade.
Mas quando fazemos dos juízos provisórios de juízos determinantes ou princípios, sendo a sua causa a confusão entre fundamentos objetivos devido à falta de reflexão, então, começamos a mergulhar no campo dos preconceitos, cujas fontes podem ser: a imitação, que é tomar simplesmente por verdadeiro aquilo que outros puseram a circular, cujos expedientes são: fórmulas, máximas, sentenças, cânones e provérbios; quanto ao hábito, advém da retenção do nosso entendimento num juízo por razões erradas, e que sucessivamente vai ficando embaraçado e que só por força do tempo se vê obrigado a eliminar o juízo preconceituoso, que dimana dos preconceitos de prestígio (preconceitos de prestígio de pessoa, preconceitos de prestígio de multidão e preconceitos de prestígio da época) ou preconceitos de amor-próprio; e a inclinação que é o uso passivo da razão. Para evitar isto o autor alerta não se reter a juventude na simples imitação, como usualmente acontece.
 A complementar tudo o que já foi revelado anteriormente, surge a temática da dúvida que tanto pode ser originária da existência da possibilidade contrária como, também, pode ser um simples obstáculo do assentimento, que pode ser subjetiva – estado de ânimo – ou objetiva – conhecimento da insuficiência de razões para o assentimento, usualmente designada de objecção. Sendo que a razão contrária ao assentimento de ordem subjetiva chamada de escrúpulo. A dúvida funciona segundo o princípio de tornar incertos determinados conhecimentos procurando demonstrar a impossibilidade de chegar à certeza, como acontece no cepticismo, mas que pode ser útil quando retida na suspensão do juízo e quando conjugada com o método crítico, típico do método de filosofar, que analisa as afirmações e as objecções na esperança de chegar à certeza.
Já no caso da hipótese, entrando na temática da probabilidade, consiste num assentimento do juízo acerca da verdade de um fundamento em virtude da suficiência das consequências. Sendo os requisitos os seguintes: 1ª.) a possibilidade da própria pressuposição, ou seja, a verossimilhança com o intuito de evitar cair na invenção; 2.ª) a consequência, pois só de fundamentos corretos derivam consequências corretas; e 3.ª) a unidade, em que a hipótese deve sustentar-se por si mesma, sem necessitar de hipótese auxiliares.
Avançando para os últimos momentos da obra, encontramos as seguintes secções: 1.ª) dos conceitos; 2.ª) dos juízos; e 3.ª) dos raciocínios; que, para além de desenvolver aquilo que já vem a ser tratado ao longo da obra vai ainda abordar a lógica aristotélica; no último momento, temos como tema a metodologia geral que engloba os seguintes assuntos: a) fomento da perfeição lógica do conhecimento mediante a definição, a exposição e a descrição dos conceitos; e b) fomento da perfeição do conhecimento por divisão lógica dos conceitos; que toma como assunto os conceitos, o seu tratamento, bem como, a sua exposição.     
Concluindo, o conhecimento humano é um conhecimento que recorre às caraterísticas comuns entre diversas coisas, funcionando como princípios cognitivos; e que tanto podem partir do todo para as partes (caraterísticas analíticas) como podem partir das partes para o todo (caraterísticas sintéticas). E apesar da verdade ser uma propriedade objetiva do conhecimento, ela pode ter como fonte uma pessoa e, desse modo, temos subjetivamente um assentimento. Ora se damos assentimento a alguém, podemos facilmente cair num preconceito de prestígio, para evitar isso, recomenda-se o juízo provisório que, pondo em suspenso qualquer juízo determinante, põe no crivo da análise crítica todas as afirmações e objecções com o objetivo de chegar a uma certeza.
Passando para a atualidade da obra, ela ainda hoje permanece atual, basta darmos uma olhadela na metodologia científica.
Bem, caros leitores, terminamos a nossa epopeia anual com esta magnífica obra do pensamento moderno, lamentamos não termos tido mais tempo para uma análise mais digna desta obra, mas por razões de economia de tempo tivemos que proceder desta forma; advertimo-los que estes pequenos textos são fruto de interpretações da leitura das próprias obras e que em nada se compara com a leitura das mesmas. A todos desejo um feliz natal e próspero ano novo, para o ano voltaremos com mais comentários sobre novas obras.
Fernando de Almeida.
            

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Crítica da crítica da crítica




Vivemos acima das nossas possibilidades. A frase é repetida até à exaustão, não apenas pelo governo - que procura, desta forma, legitimar retoricamente os motivos para a sua austeridade -, como por determinados arautos, concubinos e outros comentadores da comunicação social (os opinion makers à portuguesa), como ainda por personalidades como a Isabel Jonet e outros membros eclesiásticos. O que estes ainda não se deram ao trabalho de fazer foi de analisar, do ponto vista formal, lógico, a frase em questão; se se tivessem dado a esse trabalho decerto perceberiam que a proposição que defendem só tem, ou só ganha sentido, por meio do enviesamento ideológico que encobrem.
Ora vejamos, não é viver acima das possibilidades viver o impossível? Por seu turno, viver o impossível é manifestamente impossível, logo, o sentido desta asserção não pode estar contido na frase em si, isto é, considerada isoladamente. Portanto, para podermos compreender o que pretendem significar os que dela fazem, até à náusea, uso, teremos de adentrar, por sua vez, na conceção que estes fazem da realidade que pretendem designar.
É que, de facto, se vivemos até agora como vivemos – acima das nossas possibilidades, como insistem alguns e que não são poucos! - é porque o sistema socioeconómico, mais que o permitiu, o possibilitou, isto é, tornou possível. Agora, vem à boca a questão, por que é que, hoje, já não é possível continuarmos a viver como anteriormente? Como se justifica esta regressão ou “arrefecimento” das condições de vida gerais, que, permitiram, p. ex., a emergência de uma classe média massificada e o Estado Social que tivemos até agora e que hoje está sob ameaça patente? O que vem interromper esse estado de coisas? Se o trabalho social, a produção mundial, com a UE à cabeça, explorada sob a égide capitalista, tornou possível, até este momento de regressão, o nível de vida que tivemos, qual o fator, ou conjunto de fatores, que vêm agora inviabilizar esta realidade?
O que pretendo chamar a atenção é para o facto de a possibilidade de termos tido as condições de vida que até este momento tivemos, não é uma possibilidade do sistema capitalista financeiro mas, antes, e ainda que este primeiro o queria obliterar nomeadamente com a preservação da cisão/relação credor/devedor, do trabalho social. A UE, com todos os seus recursos (tanto naturais como humanos), com a sua capacidade de produção, não precisa que seja o sistema bancário (enquanto linha da frente do sistema financeiro mundial) a fazer parte significativa da distribuição dessa riqueza sob a forma de créditos, isto é, de dívida. A UE, com os recursos e mecanismos que possui, não precisa desta crise. O que está em jogo é a urgência de uma nova racionalidade que possa gerir o binómio produção/distribuição, preservando o enquadramento institucional da UE (enquanto unidade supranacional), sem que as relações - detentores dos meios de produção/detentores da força de trabalho - ou - credores/devedores - se convertam em relações de poder consolidadas e impossibilitem uma distribuição justa do produto global dessa unidade supranacional.
David Santos.

domingo, 25 de novembro de 2012

Lógica, Immanuel Kant (terceira parte)



Continuando o nosso passeio, ainda dentro do horizonte de conhecimento do sujeito, temos um saber que é absoluto e universal – em que os limites do conhecimento humano estão em sintonia com os limites da perfeição humana em geral – ou um saber que é particular e condicionado – que pertence ao horizonte do privado e que está limitado às próprias faculdades inteletuais do sujeito. Isto conduz-nos a diferentes tipos de conhecimentos, que iremos começar desde já a ilustrar: o saber histórico sem quaisquer limites (poli-história) e o conhecimento racional (polimatia). Do alinhar destes dois saberes resulta a pansofia. Por outro lado, o saber histórico comporta em si a ciência dos instrumentos de erudição – a filologia, que é o conhecimento crítico que se debruça na literatura e linguística. E é daqui que surge o literato ou bel spirit que se interessa pelos conhecimentos do gosto que estão de acordo com a moda.
Quanto às ciências, temos o pedantismo e o enfantramento. Enquanto a primeira se ocupa das ciências de escola, restringindo-as no que respeita ao seu uso, o segundo trata de lhe dar uma utilidade pragmática, limitando o conteúdo. Surgindo duas grandezas: a grandeza intensa [que contempla a validade e importância], e a grandeza extensiva [que diz respeito à vastidão, aqui convêm fazermos a seguintes observações: a) o uso do entendimento foca-se no todo e não nas partes; b) no plano lógico, dominar todo o conhecimento que suscite a perfeição lógica quanto à forma. Embora não seja possível prever a sua importância prática quanto à especificidade, mas é possível esperar que exista alguma utilidade; c) não confundir importância com dificuldade, pois um conhecimento pode ser importante sem ser obrigatoriamente difícil. A importância de um conhecimento é justificada pela vastidão das suas consequências. Porém, se as consequências tiverem pouco relevo, então, obtivemos um mero devaneio de conhecimento.
Outro assunto, também ele de interesse, é a verdade. O que é a verdade, perguntam vocês? Seguindo o caminho trilhado pelo filósofo em análise, a verdade consiste no acordo do conhecimento com o seu objeto, consequentemente, o sujeito só pode comparar o objeto porque o conhece, daí segue-se que, o conhecimento acerca de um objeto necessita de auto-confirmar-se. Seguindo um critério formal de verdade que consiste exatamente nesta coerência do conhecimento consigo mesmo, o         qual está imbuído de três princípios de verdade: a) princípio da contradição e da identidade; b) o princípio da razão suficiente; e c) o princípio do terceiro excluído. Já o seu antagónico, a falsidade, se for tomado como verdade chama-se erro. E que pode ter como origem uma segunda fonte de conhecimento, que é a sensibilidade que nos fornece o material que constitui a matéria do nosso pensamento e que se desenvolve segundo leis diferentes das do entendimento e que, por vezes, nos pode levar a confundir aparência com a própria verdade. Deste modo, para evitar tais erros à que identificar essa aparência, que pode ser clarificada com o juízo de outros, claro que se existir diferendo, então, temos indício de erro.
E daqui surgem duas regras: a primeira, é a verdade da consequência, pois a consequência é determinada pelo seu princípio, que é o conhecimento; a segunda, que consiste no seu contrário, que se as consequências são verdadeiras, logo o conhecimento é verdadeiro. Por outro lado, esta influência da sensibilidade leva-nos a tomar por objetivo algo que é subjetivo e que tem apenas aparência de verdade. Para que se evite tal malfeito, o autor recomenda as seguintes precauções: 1) pensamento próprio (modo de pensar ilustrado); 2) pensar na posição do outro (modo de pensar alargado), e; 3) pensar em acordo consigo mesmo (modo de pensar consequente).
Concluindo, verificamos que o pedantismo se ocupa das ciências da escola, por seu lado, o enfatramento procura dar uma utilidade pragmática a essas ciências. Segundo ponto visa a verdade como conhecimento que se identifica com o seu objeto e que se auto-confirma; à verdade seguem-se os seus critérios formais, inspirados nos critérios aristotélicos e a regra de princípios - consequência; além das preocupações relativas à sensibilidade, uma vez que ela nos pode conduzir ao erro.  

Fernando de Almeida.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

The Visitor - um filme sobre ética da globalização



The Visitor (Thomas McCarthy, 2007) é um filme sobre ética da/na globalização. Uma ética que se desenvolve para além dos simples limites do cosmopolitismo, para além da tolerância ociosa e estéril, do baço verniz das convenções, de um multiculturalismo sem multiculturalidade, da hegemonização das formalidades em detrimento da pulsão da alteridade, para além da burocratização, esse universal mecânico, frouxo, não criador.
The Visitor narra a história de um professor universitário de economia que não se reconhece na sua profissão, nas suas habituais funções, no seu vivido quotidiano, naquelas que são as expetativas de vida para um norte-americano branco e viúvo, quarentão intelectual de economia. Em vão que Walter Vale tenta aprender piano – um dos únicos instrumentos musicais toleráveis para o seu “tipo”. Mas não espantará que, mais tarde, se revele um inato talento para o djembê.
A sua vida só principia a mudar quando, por ocasião da necessidade de apresentar em Nova Iorque um livro para o qual nem contribui (ainda que a verdadeira autora tenha tido a magnanimidade interessada de o colocar como coautor), Vale encontra o seu apartamento nesta cidade ocupado por um casal de estrangeiros. Um jovem sírio de nome Tarek e uma jovem oriunda de Senegal chamada Zainab. Alguém, um desconhecido Ivan e que saberia da sua prolongada ausência de Nova Iorque, teria alugado, sem o seu consentimento, o apartamento a este casal. Contrariando as expectativas do casal Tarek e Zainab, Vale demonstra grande transigência perante este cenário de grosseira ocupação da sua propriedade, e, mesmo estes últimos, logo que provada a real pertença da propriedade, imediatamente se conformam à sua nova realidade e se apressam, por meio de mil e um pedidos de desculpas e gestos de embaraço, a fazer as malas. Mais tarde se saberá o motivo para a vigorosa cooperação do casal - estavam ambos ilegais no país.
Tudo ocorre, portanto, nessa, que ainda é esta, América pós 11 de Setembro. Uma América onde as contradições (hipocrisias!) da globalização se tornam ainda mais flagrantes, onde ainda se insiste na retórica das vantagens da abertura das economias dos países em desenvolvimento mas onde os imigrantes oriundos desses mesmos países “em desenvolvimento” encontram cada vez mais as portas fechadas para a realização das suas justificadas expectativas. Uma América constitucionalmente suspensa no que toca a estes estrangeiros, nomeadamente os que não são atestadamente ocidentais.
É sob este delicado contexto que Walter Vale acolhe na sua casa esse casal de estranhos depois de que estes se preparavam para partir. Não o fez por sobranceira comiseração ou piedade orgulhosa. De alguma forma Walter sabia que esse seu gesto enunciava já aquela ansiada rutura radical com a vida que escolhera até aí. 
É com Tarek que o professor começa a aprender djembê. É uma aprendizagem profunda que, no seu paulatino desenvolvimento, o faz comungar com todos aqueles negros e outros árabes do Central Park a tocar para um público ocasional e inteiramente gratuito. É uma formação que o liberta, que tem por efeito o estalar do frágil verniz de uma existência cuidadosamente maquilhada, mas espetacularmente falsa.  
Entretanto, depois do sírio lhe ter oferecido um djembê, Tarek é detido no metro. Tudo não passou de um infeliz incidente, tornado verosímil pela conjuntura xenofobicamente opressora do pós 11/10. De repente, depois dessa catástrofe, passou a ser permitida a detenção arbitrária de todo e qualquer imigrante (nomeadamente, o não caucasiano) que, assim, se descobriram elevados à categoria universal de suspeitos.
Walter não apenas se revolta com esta situação, sabendo da inocência de Tarek e da sua generosidade natural, como, inclusive, se voluntaria para acompanhar todo o processo, pagando um advogado e servindo de intermediário entre este, a namorada do jovem muçulmano e, mais tarde, a mãe de Tarek. Já que ambas não o podem visitar no centro de detenção pelo facto de estarem, igualmente, ilegais no país.
Mouna, a mãe do sírio, é uma mulher pujante, de carácter notável, que é forçada a regressar de Michigan após ter tentado contactar o seu filho durante três dias seguidos, e, pela qual, Walter rapidamente se enamora. Fugira de Síria, levando o seu filho, precisamente por motivos de perseguição política (que conduziram à morte na prisão do seu ex-marido, um ativo jornalista) e, agora, no “país da liberdade”, vê-se confrontada com a mesma realidade, desta feita, com o bem-estar do seu filho posto em causa.
Apesar dos esforços do economista e de Mouna, não conseguem evitar a deportação de Tarek. Que, aliás, Walter só toma conhecimento no próprio dia em que Tarek fora, sem aviso e com todo o expediente, deportado. Esse tratamento revolta Vale que, relevando a sua impotência contra esse estado de coisas, exterioriza a sua cólera, já impossível de ser contida, contra dois funcionários negros impávidos e serenos do lado de lá do guiché de informações do centro de detenção.
É com amargura que este se despede de Mouna, que não mais pode continuar nos Estados Unidos sabendo que o seu filho já está na Síria. Ambos sabem da elevada improbabilidade de se tornarem a ver e, consequentemente, de realizarem as suas existências incompletas por via de uma pedagogia de sucessiva abertura ao outro; não o outro fantasmático ou o outro que, implacavelmente estereotipado, não passa do mesmo, mas o outro concreto, incarnado, o outro outro. 

O filme termina com Walter a tocar vigorosamente djembê num banco na estação do metro. De camisa branca desfraldada, sem gravata, rodeado por dois negros, o barulho do metro no seu constante vai e vem, um homem branco, atravessando aquele cenário, vagamente indiferente, apressado, empregando uma discreta gravata cinzenta, barba bem aparada, um simples homem de negócios, talvez…

David Santos.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Bodes Expiatórios Contemporâneos


Sabemos através das dinâmicas de grupo que nos chegam da psicologia que criar um bode expiatório não é tarefa difícil. Mas, de que modo a actualidade gera estes bodes expiatórios? Falar de sacrifício como estrutura perene e eficaz de um ritual é reconhecer-lhe, na actualidade, estruturas que se metamorfosearam. Ainda que existam na nossa sociedade bodes expiatórios estes perderam com a complexificação social ao longo da história a sua função catártica e chegamos ao que René Girard denomina, ao longo das suas obras, de «crise sacrificial», isto é, quando as vítimas, que deveriam expulsar a violência da sociedade, deixam de possuir este papel e a violência se perpetua na sociedade. 
O sacrifício, que era em sociedades antigas a última palavra da violência e capaz de manter uma paz provisória na sociedade, possuía um modo próprio de existir, pois era devido à vítima sacrificial ser escolhida aleatoriamente, mas não irracionalmente, que ela não podia jamais devolver a violência à sociedade através do acto de vingança (Cf. Alfredo Teixeira). Em Édipo Rei, vemos exatamente este papel catártico do sacrifício onde a vítima se escolhe a si mesma e que é simultaneamente desconhecedora da sua tragédia situando-se Girard numa análise distante à que Freud realizou na sua psicanálise (Cf. Freud).
A crise sacrificial, que ocupa o lugar do sacrifício nas sociedades modernas, é a expressão de que se no início o sacrifício se apresentava como obrigação do sagrado ela aparece, por outro lado, como uma actividade criminal que engloba riscos de similar amplitude aos que estão envolvidos na obrigação sagrada. A constituição do poder jurídico condena o sacrifício como actividade criminal a menos que seja legitimado através da criação de outras instituições humanas substituidoras – por exemplo o direito penal das sociedades modernas – desta primeira instituição humana que era o sacrifício. O sacrifício toma como meio a utilização da violência, sobretudo física numa primeira instância, que ao longo da história se foi transformando cada vez mais em formas dissimuladas e pouco claras. Actualmente, a interposição de mediações técnicas entre as vítimas e os seus sacrificantes podem negar uma eventual violência e camuflar esse registo levando a um disfuncionamento do acto sacrificial. Contudo, negar a violência, quer num registo moderno ou primitivo, é afirmar o seu poder metamórfico pelo qual ela vai sempre encontrando uma e outra vítima sobre quem se exerce. A conduta sacrificial que nas sociedades antigas permitia expulsar a violência através do bode expiatório, como será a seguir demonstrado, é impossibilitada qua talis pelo sistema jurídico presente nas sociedades modernas que se apresenta como substituto racional daquela. O sacrifício já não é um instrumento de prevenção contra a violência pela sua impossibilidade de se apresentar como um ritual sacrificial, pelo menos de modo claro, sem mediações técnicas. A que se deve então esta impossibilidade? Em especial porque o sistema jurídico compete directamente contra o sistema sacrificial por aquele ser exactamente um outro modo sacrificial metamorfoseado (p.ex. o mito da pena, em Ricoeur). O sistema jurídico funciona na actualidade como um filtro, em grande medida, da violência física directa que fazia o sistema sacrificial do bode expiatório funcionar. O sistema jurídico-penal substitui o sistema sacrificial por este ser mais efectivo como legitimador da violência. O sistema jurídico-penal ao actuar de modo legítimo no plano social irá colocar o mecanismo sacrificial como ilegítimo. Existe uma desmistificação do sacrifício e este passa apenas a ser possível pelo sistema jurídico-penal – a justiça pelas próprias mãos, legitimada pelo mecanismo sacrificial quando a multidão tinha uma posição unânime, não é permitida neste novo sistema.
Resulta assim, desta crise sacrificial, a proliferação da violência em formas dissimuladas as quais invadem a sociedade ao serem legitimadas pelos diferentes modos de poder (poder político, económico, social, científico, tecnológico, etc.): «onde quer que a violência esteja presente a impureza sacrificial estará presente.» (René Girard).


  Márcio Meruje, O Mito: A Voz Desconhecida do Real?
Uma leitura de René Girard, Congresso Internacional , Universidade Aveiro - Maio 2011.