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quarta-feira, 4 de abril de 2012

Porque esqueceram o humanismo? (A sobrevalorização do pensamento técnico-científico)

Linha Geral: Será o inumano a condição do homem moderno? Tudo se justifica à luz de uma racionalidade técnico-científica que tende a alienar a dimensão verdadeiramente humana do humano em prol do cálculo permanente, da coisificação permanente do homem. E, por isso mesmo, as políticas de distância, os planos, a "troika", em substituição de uma prática de proximidade que valoriza o singular e único.  

O alerta para as nefastas consequências da excessiva racionalização da sociedade contemporânea percorreu quase (senão mesmo) todas as correntes filosóficas do século precedente. Este alerta foi feito pelos mais diversos filósofos. Filósofos que vão desde Husserl até Lukács, passando por Weber, Heidegger, Adorno e Horkheimer; podendo até ser também encontrado nos filósofos mais tardios, tais como Marcuse, Jonas, Ellul, Foucault, Habermas, e até mesmo em Virílio, Sloterdijk e Zizek. Para a Filosofia, a importância do problema da racionalização excessiva é evidente. Mas até que ponto aproveitou a sociedade contemporânea a problematização filosófica da racionalidade técnico-científica?
Numa análise dos fundamentos do pensamento económico sob o qual se sustenta toda a sociedade contemporânea (tal como no texto que o David Santos escreveu sobre Latouche se demonstra) encontrar-se-á esta racionalidade técnico-científica. O mesmo tipo de racionalidade que preza pela objetividade, pelo facto, pela eficiência, pelo cálculo frio e maquinal. Encontrar-se-á a mesma racionalidade que toma o humanismo como um subproduto; que o caracteriza como o empecilho (constrangimento) aos desenvolvimentos técnico-científicos. Veja-se a título de exemplo o caso das polémicas em torno dos estudos que envolvem células estaminais na Europa e nos Estados Unidos.
Contudo (e paradoxalmente) é sob esta mesma racionalidade que se edifica todo o sistema social no mundo ocidental. “Não sejam piegas…” diz-se em Portugal, como quem diria: “Não comprometam a eficácia do sistema económico técnico-científico com as vossas queixas, com esses vossos mesquinhos sentimentos humanos”. “Deixem de apelar a um humanismo já ultrapassado, estragam a eficácia do método pela razão escolhido”. E Portugal não é o único, pois é esta mesma racionalidade quem pretende justificar as decisões tomadas por esta Europa fora. Relembrando as célebres palavras de Husserl em A Crise das Ciências Europeias, parece que – passados quase cem anos – ainda é caso para se dizer que “Meras ciências de factos criam meros homens de factos”.
É flagrante esta deificação da racionalidade técnico-científica pela política contemporânea. Ou o que é pior: é flagrante esta deificação da racionalidade técnico-científica na política contemporânea. E é aqui onde se encontra o cerne da questão, pois a essência do problema não está apenas no carácter inumano deste tipo de racionalidade, ela encontra-se também no mau uso que dela é feito.
Na retórica política é agora comum o apelo a um moderno pathos pela eficiência. Veja-se a título de exemplo o conhecido “choque tecnológico” da propaganda política do governo socrático. O apelo à eficiência científica tornou-se no paradigma central das ideologias contemporâneas. A racionalização dos meios pela tendenciosidade económica transforma consigo os fins almejados por um governo. Interessa hoje cumprir com os números, não cumprir com os homens. A crise que se vive em Portugal não é apenas uma crise económica, é também – e sobretudo – uma crise do humanismo.

Ângelo Milhano.

domingo, 1 de abril de 2012

Os assassinos entre nós, Simon Wiesenthal (I)

Linha Geral: Os assassinos entre nós, Simon Wiesenthal. De que trata a obra? Qual apostura de Wisenthal em relação a Eichemann e seu julgamento? O 'pedigree' da raça humana, a 'super-raça' deve eliminar as demais. O que foi a ODESSA, e que importância esta última tinha nas fugas? Estas e outras considerações no seguinte texto, repousado na obra e biografia de Wiesenthal.

Os assassinos entre nós, Simon Wiesenthal (n. 31/12/1908 – m.20/09/2005) 
Esta obra é organizada de uma forma um tanto ou quanto invulgar; intercalada entre o perfil e as narrativas de Simon Wiesenthal, tendo sido essas narrativas transmitidas a Joseph Wechsberg que as inscrevera neste livro. 
Os conteúdos existentes na obra descrevem a vida de Simon Wiesenthal durante a Alemanha nazi, a sua posterior queda e, por último, a perseguição levada a cabo por Simon aos criminosos nazis. De entre estes, Simon dá especial destaque a Adolf Eichmann, que durante o julgamento afirmava que não era culpado por nenhum dos crimes que era acusado pela razão de que apenas estava a cumprir ordens, e que as cumpriria mesmo que isso significasse enviar o pai para a câmara de gás. O curioso acerca de Eichemann, segundo Wiesenthal, é que nunca teve mazelas com judeus e, para grande estupefação, ele era palestiniano alemão, membro dos Templários. Outro criminoso referido é Josef Mengele, médico do campo de concentração em Auschewitz entre 1943 e 1944, sendo o responsável pela realização de experiências em prisioneiros judeus com vista ao aperfeiçoamento da raça ariana. Na vida de Mengele constam dois títulos académicos, o de doutor em filosofia (Universidade de Munique) e o de doutor em medicina (Universidade de Francforte), mas que lhe foram posteriormente retirados por ambas as universidades. O motivo da atenção por esta personagem advém da sua teoria de que o ser humano, tal como um cão, possui uma espécie de pedigree. Arraigado nesta crença, Josef acredita na criação de uma «super-raça» e de que as raças inferiores deveriam ser exterminadas, em função disso desenvolveu um programa de procriação desta «super-raça», selecionando jovens que obedeciam aos cânones da raça ariana para serem encaminhados para campos de procriação. Na sua fuga da Alemanha, Josef foi ajudado pela organização O.D.E.S.S.A., passando pela Argentina, Grécia, Brasil, Paraguai e pelas colónias alemãs do Paraná Superior. Pensa-se que Mengele se fixou na selva brasileira, que faz fronteira com o Paraguai, entre Puerto de San Vicente, ou entre a ligação rodoviária Assunção – São Paulo, e a fortaleza Carlos António Lopéz. 
A organização atrás mencionada foi responsável pela criação da rota de Odessa, um passaporte de saída para os criminosos da elite das S.S. e da Gestapo; cujas vias de fuga eram organizadas pela BSHA (Ministério do Interior das S.S., que englobava os serviços de espionagem e contra-espionagem). As vias tinham como destino: Espanha, Médio Oriente, Argentina e Paraguai. A rede contava com a ajuda de correios, nomeadamente, camiões de mercadorias para saída do país além dos transportes ilegais; os criminosos nazis recorriam ainda aos mosteiros e às estalagens como meios para passar a fronteira. Este transpor da fronteira era facilitado pelas boas relações entre a Odessa e as embaixadas, dando o exemplo da afinidade de relações entre a Odessa e a embaixada espanhola presente na década de 40. 
(cont.) 

Fernando de Almeida

domingo, 25 de março de 2012

As 11 ideias de Serge Latouche

A Linha Geral: Do discurso e entrevista a Serge Latouche. O crescimento económico é um fim em si mesmo? Não será esta ideologia ilógica? Este obsoleto e perigoso pensamento, na sua aplicabilidade,  poderá ter como consequência a perda de "bela experiência", recheada de valores. O Homem não é o fim de uma linha evolucionista. Porém, de acordo com os paradigmas vigentes, corre o sério risco de o vir ser. Temos aqui apresentada uma nova e revolucionária visão acerca da organização dos "tempos". Que nos propõe, sucintamente, o pós-materialismo? Temos de largar fantasmas e fantasias, temos de desmistificar promessas que nos foram feitas.


Serge Latouche, tal como Paul Krugman, esteve em Portugal. Foi há bem pouco tempo (aproximadamente três semanas). A celeuma, infelizmente no meu entender, não foi tanta quanto aquando da vinda do nobelizado – normal, dirão uns, triste, direi eu.
Convidado pela Fundação Calouste Gulbenkian, Latouche deu ainda uma entrevista para o jornal Público, publicada a 19 de Março. Foi a partir desta entrevista que coligi estas onze ideias de Latouche nesse espaço arrogadas:  
1) A lógica do crescimento económico pelo crescimento económico adquiriu contornos religiosos. Os economistas assumiram, de forma dogmática, que a dinâmica das relações sociais deve orbitar em torno desse valor – o crescimento. Assim, o que Portugal precisa é de crescer; o que a Europa precisa é de crescer; os Chineses não podem crescer se os Europeus e os Americanos não crescerem também... e, infelizmente, assim vai o mundo. Justificam-se todas as ideologias e colaterais excessos, demagogias e patifarias, à conta desta crença económica;
2) Para que o dogma do crescimento económico se conserve torna-se imprescindível multiplicar necessidades, i. é, criar constantemente falsas necessidades, de modo a que tenhamos de trabalhar mais, de produzir mais, de nos cansarmos mais, de nos iludirmos mais, de endoidecermos e embrutecermos cada vez mais, enfim, de desperdiçarmos cada vez mais a experiência estética do estar-aí, do estar-no-mundo (a filosofia é, em parte, o convite para essa bela experiência);
3) Não pode haver crescimento ilimitado com recursos limitados - lições de lógica elementar que a filosofia no secundário já devia ter ensinado (alguém que não está a fazer o seu trabalho!);
4) “Se não mudarmos o sistema, caminharemos para o desaparecimento da humanidade”. Por sua vez, para mudarmos o sistema temos de alguma maneira transitar de um paradigma antropocêntrico para um paradigma biocêntrico; de uma ética especista para uma ética ecológica;  
5) A crise financeira é, antes de ser financeira, económica. A crise económica é, antes de ser económica, civilizacional. Foi o próprio modelo económico assente na promessa ou na pseudo-racionalidade do crescimento ilimitado que deu o poder que hoje detêm os detentores do capital financeiro (por oposição ao capital industrial); “a ilusão do crescimento [provocou] a bolha financeira”; o capital financeiro tão só se alimenta desta promessa da economia. Por sua vez, a crise económica é uma crise civilizacional onde o que vale é o ter, é a possessão, é o materialismo grosseiro;  
6) Tornou-se imprescindível, por todas as razões aqui aludidas, fazer uma revolução. Uma revolução cultural, de mentalidades; isto antes dos bombos, das espingardas e dos cravos. É preciso dar um passo em frente na história, forjar a tal sociedade pós-material (pós-desenvolvimento) onde o que importa é sustentar/garantir racionalmente um minimum material (traduzido em um minimum universal de alimentos, de habitação, de trabalho, de Internet...) de modo a que as pessoas, tendo garantido esse minimum material, possam se dedicar ao que realmente importa: a amizade, o amor, a arte, a liberdade, o diálogo, enfim, todos os valores que realmente importam e que realmente têm por efeito a criação da tal sociedade de bem-estar (que a economia tanto prometeu, ora, com a sua promessa de abundância indefinida, ora com a sua “mão invisível”, ora com a sua “luta de classes”…);
7) É preciso "descolonizar o nosso imaginário". A felicidade, a sociedade de bem-estar, não está no ter coisas, i. é, bens materiais. Temos que lidar positivamente com o facto de não sermos eternos e que a “mão invisível” do progresso humano/tecnológico não nos conduzirá a uma espécie de sociedade pós-humana, pós-histórica, onde satisfaremos todos os nossos desejos sem prejudicarmos os outros (tanto os outros humanos, como os outros não humanos, como todo o ecossistema – a “teia da vida”); 
8) A lógica do crescimento diz que é preciso indefinidamente crescer, nunca pararmos de crescer, isto porque, como é evidente, nunca paramos de consumir. Mas este raciocínio é obviamente falacioso porque tenta justificar o irracionalismo ligado ao dogma, ao aspeto religioso do crescimento pelo crescimento, contra uma verdadeira e desmistificada racionalidade onde trabalho e distribuição dos seus produtos têm como finalidade garantir um mínimo de bem-estar universal/global progressivamente sustentado e uma vida realmente digna;
9) "É preciso, antes demais, trabalhar menos". Temos de começar a pensar em como produzir tempo livre – este deve passar a ser o nosso grande objetivo económico. Como é evidente, para que possamos produzir tempo livre temos de ter, mais uma vez, garantido o tal minimum material dado pelo antecedente tempo de trabalho (mas, é precisamente esta inversão de valores, de objetivos, do tempo de trabalho para o tempo livre, que é verdadeiramente revolucionária);
10) Temos que mudar o paradigma, ter como valor económico não o crescimento pelo crescimento, mas sim, a "abundância frugal". A produção, o trabalho social, deve estar, como é de bom senso, subordinado às necessidades indispensáveis à sociedade mas não ao crescimento, à “produção infinita”; 
11) A sociedade precisa de se defender dos "ecofacismos" e/ou ecototalitarismos que podem despontar depois de, eventualmente (ou necessariamente), termos de sair da sociedade de consumo à força. Enfim, é preciso continuar a defender a democracia, a autonomia, a razoabilidade, a liberalidade, isto independentemente da revolução pelo qual tivermos de passar.   

David Santos.


quarta-feira, 21 de março de 2012

Da Primavera Filosófica (I)

A nossa inquietude acerca dos paradigmas vigentes desdobra-se em várias perguntas, e estas as colocamos em cima da mesa. Acreditamos na filosofia! Nas suas ferramentas, na ponte que estabelece entre saberes, bem como na visão ampliada e rigorosa que esta faculta. Este é o nosso contributo. Uma filosofia primaveril. Existem belas flores a desabrochar.


O Sexto Empírico.

domingo, 11 de março de 2012

Estado de Direito e Estado de Excepção - O julgamento do representante político

Como evidente as "fontes" de legitimidade do representante político no Estado de Direito (EdD) e no Estado de Excepção (EdE) são perfeitamente distintas. No EdD a legitimidade do representante político provém da "estrutura constitucional e institucional" pré-definida e pública e da universalização (fundada na legitimidade democrática) das "regras do jogo" (o processo político com a sua divisão tripartida do poder em legislativo, executivo e judicial; a regra da maioria; o multi-partidarismo; a lógica do parlamento...). Já no EdE a legitimidade do representante político se funda, precisamente, no próprio carácter excepcional do "estado de coisas".
Assumidos estes pontos reflectiremos sobre a legalidade (ou não!) do julgamento do representante político (tanto no EdD como no EdE) quando as suas decisões antes de se averiguarem serem fundadas no interesse público, no bem comum etc., são decisões, quer no estado excepcional quer no estado regular, sempre legitimas - ainda que, as suas "fontes" de legitimidade difiram de maneira antagónica. A ressalva essencial a fazer é a de que no EdD há todo um aparato legislativo que torna possível (e legítimo) a condenação do representante político quando, repare-se, as suas decisões não estão fundadas naquilo que está garantido previamente pela "estrutura constitucional e institucional" e das universais e conhecidas "regras do jogo", quando, em suma, o representante político, no EdD, deixa de ser tido como tal e passa a ser julgado/encarado como um cidadão entre todos os outros (i. é, sem qualquer legitimidade política, sem a tal imunidade política) ainda que tenha sido precisamente na condição de representante político que tenha lesado o Estado de Direito. 
No EdE tal não sucede, tal separação entre o representante político e o não representante (o cidadão comum), porque, precisamente, a condição de representante político não está fundada em quaisquer "estruturas constitucionais e institucionais" ou universais e públicas "regras do jogo" que arbitram, limitam, o papel do representante do público. Assim, no EdE a norma é substituída pela arbitrariedade, sem que, atenção, a questão da legitimidade política seja por isso abalada ou posta em causa - as "fontes" de legitimidade são distintas num e noutro tipo de Estado mas não deixam, por isso mesmo, de ser "fontes". Assim, no EdE, pela suspensão da normatividade jurídica, o "ditador" é um representante político a tout court, onde não ocorre a distinção do sujeito enquanto representante político e enquanto homem comum: efeitos do estado de excepção. No EdE o representante político só pode ser levado a tribunal quando é restaurado todo o aparato jurídico que este suplantou, antes disso não há julgamento e o "ditador" está literalmente acima das leis. 
De qualquer maneira, feita a devida ressalva, se lemos com atenção, em outro dos aspectos em que EdD e EdE concordam é no facto de que, as decisões políticas - em si mesmas - são intrinsecamente, são sempre, transcendentes à legitimidade à qual recorrem (tanto no EdD como no EdE). Quer dizer, são imanentes porque a sua legitimidade emana ou da norma ou da excepção (dependendo da forma do Estado), mas, simultaneamente, e não em contradição, são transcendentes a esta emanação da legitimidade porque, na arena política, não está tudo decidido na forma de legitimidade, nem no prévio enquadramento normativo. Há um qualquer resíduo fundamental, um extra-norma, um extra-legislativo, que, por si só, justifica o sentido da política. De facto, esta é a condição do representante político - se quisermos, a sua justificação e fundamento. O facto de existir um representante político justifica tão só o sentido da nossa existência colectiva e relembra de maneira fundamental as incertezas relativamente ao nosso futuro, onde não está tudo decidido no aparato legislativo e as decisões do representante político (do executivo) têm a força do excepcional, da incerteza, do imprevisto, do transcendente. Nesse caso, o que faz a separação dos poderes, o procedimento político em si, o pluralismo ideológico e/ou partidário… é, tão só, limitar esse carácter excepcional que faz do representante político um cidadão excepcional, de modo a que este não subverta os princípios fundamentais relacionados com a democracia. 
Mesmo no EdD, salvaguardadas as diferenças aqui mesmo identificadas, subsiste um carácter excepcional (extra, transcendente) referente às decisões políticas que não permite que os seus representantes sejam julgados, ainda que, como dissemos, uma distinção seja possível de ser levada a cabo num EdD: a distinção entre o representante político propriamente dito (com o seu carácter excepcional) e o cidadão comum (igual como todos os outros perante as leis). Isto não significa que o representante político esteja acima das leis, como disse acima, há todo um aparato legislativo específico que o obriga a responder perante estas, mas, insisto, a justificação para a sua existência (do representante político) está precisamente naquilo que escapa ao aparato normativo do direito e que é da ordem da necessidade existencial de se fazerem escolhas fundamentais, escolhas estas inevitáveis e de efeitos sempre imprevistos. Significa isto, também, que o tão desejado "reino dos céus", o paraíso perdido, a história anti-histórica do pós-político ainda não chegaram. Felizmente! 
Conclui-se também, do que decorre, que não há legalidade, que é ilegítimo, o julgamento do ex-primeiro-ministro da Islândia. A retirada da imunidade política ao ex-primeiro-ministro Gerir Haarde e o seu consequente julgamento só é legal enquanto o que estiver em causa for o desrespeito das normas jurídicas já pré-estabelecidas. Assim, mesmo num EdD, Gerir Haarde não pode ser julgado enquanto representante político, mas apenas como o cidadão entre outros que, reitero, também é. Não pode ser julgado pelas escolhas que fez, pois estas, como referi, estavam legitimadas pelas “estruturas constitucionais e institucionais” e públicas e universais “regras de jogo” previamente conhecidas. O que pode ser julgado, por um lado, é o processo político como um todo; por outro, se Gerir Haarde utilizou o seu cargo para privilegiar interesses privados em detrimento do interesse público, etc.

David Santos.

GAUGUIN, Paul - Two Tahitian Women With Mango Blossoms



Um sintetismo da natureza alegórica. Não é erótica, esta representação do nativismo taitiano?

sexta-feira, 2 de março de 2012

Novo Elogio da Filosofia

Não, hoje não se trata de mudar o mundo, trata-se de dar mais um "salto" na história - isto sem quaisquer hegelianismos, marxismos ou outros ismos. Não, não se trata de mudar o mundo como apregoava Marx no esforço de subverter, ou realizar pragmaticamente, o idealismo hegeliano. Trata-se tão só (e não julguemos que é coisa pouca!), de compreender que o mundo mudou e nós apenas parcialmente mudamos com ele. Que continuamos a usar os mesmos esquemas racionais/mentais, a mesma ética que há um século - e quem diz um século, di-lo por comodidade estilística!
Em parte - e, mais uma vez, sem heideggerianismos - hoje ainda não pensamos. No sentido em que continuamos reclusos de uma série de discursos e esquemas lógicos, retóricas também, que não são convergentes com o sentido que a actualidade tomou. Por isso, também em parte, que as mobilizações de hoje, da juventude (no sentido não estreito da idade!), focando-me no Ocidente, são fragmentadas e, no fundo, não têm a apresentar nada de novo - é uma juventude com mentalidade gasta (com certeza, contra mim mesmo falo!) - é-lhes ausente uma maneira de pensar autênticamente contemporânea, uma maneira de pensar eticamente (i. é, tendo em conta todo um novo padrão de comportamentos, de relação com os outros e com o mundo), uma ética e uma racionalidade não segmentada, não marginal, não retirada de velhos discursos e velhas tiradas.
Não é a questão de "descobrir a pólvora" é sim a de reconhecer o nosso falhanço (contrariamente a um certo discurso de Mia Couto, não creio que foi a anterior geração que fracassou, nós é que fracassamos quando julgamos que não há mais a fazer, que é o fim da história), a nossa incapacidade de dar um sentido, de construir uma nova racionalidade - com esta, uma nova ética, uma nova cultura - que compreenda - no sentido de abarcar, abranger - as várias mudanças que foram sendo introduzidas neste século, mudanças estas que atravessaram as gerações deste e do passado século sem que nós, verdadeiramente, as dominássemos ou sequer as acompanhasse-mos.
É certo que não sei, com a lucidez imprescindível, que racionalidade é esta que nós, juventude, precisamos de forjar, pensar e descobrir – só creio, e por enquanto, é muito mais essa intuição - essa "pedra no sapato" - que um conjunto estruturado de argumentos, que é imprescindível a esta nova racionalidade. Creio também que a raiz profunda de mobilizações como a geração à rasca, os indignados, os occupy… e, igualmente, o seu falhanço e não radicalidade, tem por fundamento um ressentimento novo - um ressentimento contra a nossa incapacidade de nos construirmos com as oportunidades (sublinho: oportunidades!) que os nossos tempos nos legam com as suas novas estruturas (que foram por nós causadas e estabilizadas) e "proeminências".
Repare-se, hoje, o conceito de rede, que a internet fez transparecer (disse "fez transparecer" porque, na verdade, a "ontologia" da rede, é mesmo o fundamento da existência colectiva – o "contrato social") está em conflito permanente e, aparentemente, sem fim à vista, com a protecção da propriedade privada (os direitos do autor como efeito da dinâmica jurídica do capital); o público e irrestrito (livre) está em permanente conflito com o privado e restrito - e isso também nos têm vindo a dizer o Guilherme e o Luís. Hoje há uma ética animal - ou alicerçada na consciência da nossa condição de terráqueos (como já nos havia ensinado Darwin há dois séculos atrás)- que está para além (ou aquém!) da estreiteza e miopia política ajuizada, catalisada, nas estreitas e míopes lutas de classe. Hoje propagandeia-se uma consciência ou ética ecológica da qual não percebemos verdadeiramente o significado, ou, essa mesma consciência convive, sem grandes perturbações, com o imperativo, quase que irracional, de crescimento económico - i. é, da dinâmica insaciável e irreprimível da oferta e da procura assente na produção e reprodução de bens materiais. Hoje, o conceito de trabalho, não tem uma relação capital com o homem; como o Ângelo diz abaixo: a precariedade banaliza-se, torna-se uma inevitabilidade, faz parte mesma da condição do homem contemporâneo. Hoje, modelos de auto-gestão da colectividade, estimulados, concentrados, ademais das vezes nos centros urbanos, através de projectos locais como o Orçamento Participativo, como o exemplo da cidade de Toronto, desenvolvem-se em paralelo, muitas das vezes em conflito, com os fluxos, aparentemente incontroláveis e consequências da categorizada globalização. Hoje, e como assistimos presentemente na vizinha Espanha, o conceito de Universidade tornou-se, não subitamente, estranho, não se sabe se esta deve ser a auto-estrada para o emprego garantido ou o lugar onde a vocação tem real oportunidade sem estar restringida, condicionada, pelas oportunidades (a oferta) que o mercado de trabalho, hipoteticamente, oferece. Hoje a consciência histórica – particularmente a europeia – torna-nos um pouco mais prudentes, mas, simultaneamente paralisa-nos, como dizia o outro: “nos puxa pelo casaco quando o que queremos é andar para a frente”.
Concluiu afirmando que a solução está na filosofia, não numa filosofia impropriamente institucionalizada, secretariada, mas numa filosofia que procura ir para além destas contradições, não no sentido nietzschiano de as ultrapassar, de se projectar para além delas, mas, mais moderadamente, de as compreender, de saber que as mudanças aqui assinaladas (que embatem frontalmente com velhas estruturas, com velhas mentalidades, com velhas formas de pensar a economia, a política, a sociedade, enfim, a existência colectiva...) são uma oportunidade para integrarmos uma nova ética, para edificarmos a tal nova racionalidade. O retorno ao nacionalismo, que parece querer vingar na grande Rússia (isto consoante nos noticiam), não é uma questão de regressão civilizacional, é uma questão de inadaptação, de incoerência, de ignorância, da falta de uma racionalidade que se consolida a partir das condições materias e pós-materiais vigentes. Precisamos, enfim, de uma filosofia que dê fundamento teórico à nossa acção, que lhe forneça um sentido. A geração à rasca precisa de mais filosofia...
David Santos.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Anonimato na Rede! Uma Utopia?





Na série televisiva norte americana Battlestar Galactica (EUA, 2004), a nave espacial Galactica foi a única a sobreviver ao massivo ataque dos cylons porque não estava ligada em rede a todas as outras estruturas espaciais e terrestres.
Odama, era um comandante em pré-reforma que abominava todo o tipo de tecnologias do género e falar-lhe de internet era o mesmo que nada. Simplesmente odiava o conceito.
A internet é a tecnologia que mais rápido evolui. Aliás, o conceito de internet estabilizou, o que muda ou evolui são os protocolos de navegação e de conteúdos. Todos os dias existem novos produtos, novas ferramentas e novos conceitos germinam dando origem a outros tantos. Se pensarmos que o carro foi inventado há mais de 100 anos e que ainda possui a mesma tecnologia (motor de explosão), então percebemos que quando falamos de internet teremos que falar do hoje, do agora sem nunca esquecer o amanhã, isto porque, na internet o passado pouco importa.
Olhar para uma sociedade tecnológica, onde se trabalha, se comunica e ao mesmo tempo se diverte em rede, é olhar para um nicho de mercado único e fácil de analisar. Assim, reunidas estas condições, nasce uma ideia interessante intitulada de Data Mining (Usama Fayyad).
Com o fluxo de informação e conhecimento existente na rede, este algoritmo (Data mining ou prospecção de dados) encontra e desenvolve padrões que ajudam ao desenvolvimento de novos produtos, novas tendências e novos mercados.
Ora, isto só é possível porque, tudo o que fazemos em rede é susceptível de análise. Isto é, toda a informação que pesquisamos, colocamos e retiramos da rede, pode ser analisada sem qualquer consentimento. Somos espiados logo que estejamos “on-line”, aliás, somos monitorizados. O conceito clássico de liberdade individual cai por terra, porque não temos alternativa em aceitar ou declinar qualquer informação que seja pessoal. Quando empresas de marketing ou de comunicação nos abordam na rua ou nos ligam para casa a perguntar qual a nossa intenção de voto ou qual o detergente que usamos, somos livres para dar essa informação ou não. O contrário acontece em rede. É claro que este é o preço por se ser livre em rede. Se podemos piratear os dados dos outros (filmes, livros etc), porque não havemos de ser vítimas de pirataria, aliás, monitorização? Estaremos perante algum novo dilema? Há preço para a liberdade do utilizador? Até os mais puritanos internautas, aqueles que não possuem nada que vá contra os direitos das produtoras, devem conhecer esta realidade. Mas nem tudo é mau. Existem softwares / aplicações que nos colocam a navegar sob anonimato e aí o problema fica resolvido.
Não se percebe se o Data Mining é legal ou ilegal. O que se sabe é que quem detiver os dados do utilizador tem o conhecimento e conhecimento é poder. O mais sinistro é o facto de este conhecimento não estar ao alcance do indivíduo, o que torna a monopolização de dados um perigo para as sociedades tecnológicas.
As empresas que nos servem, criam a tecnologia e nanotecnologia onde em muitos casos se torna suspeita, no entanto, as aplicações por eles criadas levantam murmúrios que afectam directamente a sociedade. Porém, eles só a criam, como é usada já não é preocupação deles.
O comandante Odama não era contra a tecnologia, mas conseguia ver para além dela. As sociedades têm esse importante papel, o reivindicar pela forma como a querem utilizar. E aqui a filosofia ganha um novo nicho de mercado. Estaremos preparados?
Guilherme. L. L. Castanheira

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Há ética na pirataria online.

Em contexto de “pirataria” a internet é uma ferramenta tecnológica que dá acesso a uma base de dados de conteúdos variados. Legalmente, pondera-se restringir o acesso a todos os dados que não estejam em conformidade com os direitos de autor. Ora, todo aquele que constrói conteúdos ou matéria criativa, necessita de um retorno financeiro para continuar a produzir. Esta seria a ideia lógica do artista, do produtor, enfim, do criativo. Já lá vai o tempo em que o artista morria pobre e sem qualquer tipo de reconhecimento. Nesta nova era, o criativo ganha novos contornos mediáticos, isto porque, a arquitectura em rede possibilita a propagação de conteúdos em tempo real.
Não obstante, a rapidez com que o criativo ganha reconhecimento é proporcional à perda do mesmo. É necessária uma máquina publicitária muito poderosa para conseguir rentabilizar ao máximo o poder criativo, para que, deste modo, durante o mediatismo existam ganhos relativos. Todas as produtoras de conteúdos sabem que o consumidor é bastante exigente e, que o tempo de avaliação é agora mais reduzido, isto é, a crítica é feroz e tal como qualquer conteúdo em rede, ela propaga-se - tornando-se viral. As indústrias precisam de pessoas que comprem no escuro. Ter acesso a um filme muito antes da estreia, ou acesso ao novo álbum dos Kings of Leon de forma gratuita prejudica única e exclusivamente a industria que até agora vendia um produto onde não havia direito a devolução.
Para quê pagar por um mau serviço? Quando pagamos 6 euros para ir ao cinema e não gostamos do filme, pela má qualidade, a quem me queixo? Quantos de nós já viram trailers melhores que o próprio filme? O mesmo argumento se aplica a uma enorme extensão de artes criativas. O que está em causa é a qualidade pelo serviço prestado.
Não está em causa o fascínio de ir ao cinema ou da leitura de um livro que acaba por ser melhor ou pior que o esperado. As leis de mercado mudaram. Se antes haviam críticos que guiavam/manipulavam os ideais e nos apresentavam o melhor ou o pior, agora somos todos críticos e todos temos algo a dizer acerca daquilo que queremos consumir, isto porque, tal como os críticos, todos temos acesso em primeira mão à obra de arte.
O que defendo, e parece contrário ao que foi supra referido, é que os criativos/criadores, ao contrário do que se diz, só têm a ganhar com a massificação do seu trabalho. Os projectos de lei dos E.U.A (Sopa) e na U.E (Acta) têm um lado perverso, porque protegem as pessoas erradas, ou seja, as industrias que até agora enganavam as pessoas com produtos de marketing abusivos que põem em causa a inteligência de muita gente.
Se ficamos chocados com a mansão de Kim Dotcom (dono do megaupload) porque não havemos de ficar chocados com as mansões de produtores, agentes e supostamente artistas? Ninguém processou empresas de fotocopiadoras só porque foram responsáveis pela tecnologia que permitiu a cópia de conteúdos.
É eticamente correcto fazer todo o tipo de download, seja de livros académicos ou de filmes do século passado. Se este argumento for o responsável pelo encerramento de estúdios e produtoras de conhecimento / conteúdos também não perdemos nada, aliás, a verdadeira cultura só sai a ganhar e por conseguinte as pessoas também, dado que, a qualidade só aumenta exponencialmente.


Guilherme L. Leitão Castanheira