quinta-feira, 28 de junho de 2007

O ânimo e entusiasmo de João César Monteiro no Filme –Vai e Vem


“A escola é a retrete cultural do opressor”

A mudança radical do cineasta numa entrega total à antropologia visual, reflecte não só um poder estético, mas também uma natureza visual que transparecida com os longos planos fixos demonstram um crucificante e um crucificado. Vai e Vem traz a maior tentação de sempre: falar de um testamento, tanto visual, como pessoal, isto porque, João César Monteiro, filma todo o filme (aproximadamente 180m) com um corpo adoentado, frágil e com o carisma presencial de um morrer solitário mas nunca abandonado. O filme foi já editado depois da sua morte, o que revela mais uma vez, uma força anímica e psicológica onde se pode extrair a condição reflexiva de uma “morte anunciada”.
Teria João César Monteiro uma paz restituída? Considerando a sua filmografia, Vai e Vem é a prova dos nove, de como o seu universo transparecia a sua alma, ou seja, a beleza filmada em todo o filme, revela um roteiro real e belo da sua performance estética, viva e pessoal, de uma rotina celebre ao festejar mais um dia o nascer do sol, a vida era vivida sobretudo no campo das artes, da natureza, das pessoas e em especial do mundo. O material trabalhado suspira o belo e o sublime. Porque esteticamente é a satisfação desinteressada pelo belo, que leva o cineasta nesta sua andança, mais do que tudo, J. C. Monteiro reforçava a ideia da natureza, da sua própria natureza, os sentimentos eram acompanhados de uma amargura que sentia a designação bífida de “um poder sem força sobre nós”.
A porta. A metáfora da porta entra com os sentidos de uma porta dentro de uma porta, mas que porta estaria prestes J. C. Monteiro a entrar, ou a sair? Que enquadramentos tão sublimes o cineasta criou para definir uma própria metáfora do seu prenuncio?
Não é necessário que todas as capacidades biológicas ou físicas estejam a fortalecer uma relevante necessidade para a construção do seu fado, isto porque, o desenrolar e desabrochar do espírito está presente em cada minuto, a confirmação deste momento, é a derradeira oportunidade de o manter vivo, a inteligência poética, voluntária, e as capacidades especificas para que o seu espírito anímico mantenha o mais alto nível de sobriedade, modéstia e temperança num momento onde as revoltas assustadiças rondam o seu caminho, caminho esse iluminado por um cigarro e onde o fumo serve de incenso que afasta os fantasmas agonizantes de mais um dia de trabalho. Mais um dia que merece ser festejado.
O filme é um decreto universal e fundamental para os indivíduos da nossa espécie confirmarem expressamente o embaraço moral e intelectual em que a sociedade vive. João César Monteiro é o Kant e ao mesmo tempo o Nietzsche do cinema português. O cineasta, no filme Vai e Vem deverá estar convencido de que tudo quanto existe e tudo que constitui o mundo, forma parte totalitária cheia de sentido. Por outras palavras, Monteiro foge da religião, da política, mas centra-se na racionalidade da alma (animo), não é estranho repararmos na fragilidade e melancolia do actor (João Vuvu), mas existe claramente um sentido e expressões de uma cultura fragmentada, e cuja consciência está predita nesse mesmo acto.
Este tal animo que Kant descreve, atinge uma harmonia ajustada entre a imaginação e o entendimento que deve ser compreendida no método do saber. Logo, essa harmonia é a circunstância aparente do saber e está composto com o crer.
O ânimo é assim visto como o complemento essencial de um génio cinematográfico, que conduziu a livre – beleza e designa o poder estético ao universal.
A animação da força vital do espírito é a que conduz ao caminho da única verdade que se deve possuir, o corpo é um utensílio que pouco interessa trabalhar, a estética em Kant “ ensina que o sentimento é o modo primordial de qualquer coisa a ser dada – qualquer coisa pode ser dada porque há um sentimento que a recebe.” Assim fica ilimitada toda a concepção do filme, porque a força anímica produz uma metamorfose que recolhe posteriormente com o artista. Se a natureza cria um belo inconsciente o artista (João César Monteiro) cria do belo inconsciente um belo aterrador, cria uma estética que apresenta um aspecto de ânimo e ao mesmo tempo de génio, isto talvez, porque “génio é o talento (dom natural) que dá a regra à arte” – I. Kant, e isso é resplandecente em todo o filme.
Só se consegue ver o enfraquecimento do corpo, porque a verdade e a coerência mantém-se durante os 180m, se na estética Kantiana o sujeito dita a regra (sujeito – estética) no Vai e Vem o realizador é a própria estética e o espectador …
“A ideia do bom com afecto chama-se entusiasmo. Este estado de ânimo parece ser a tal ponto sublime, que comummente se afirma que sem ele nada de grande pode ser feito” (critica da faculdade de juízo I. Kant): não basta ver o filme, é preciso sentir espiritualmente a tendência poderosa que o autor transmite. É nobre a relação apoteótica que ele mesmo vai afirmando, tanto dentro do autocarro numero 100, como quando dançava flamengo, ou então, delirar ao ver o genial Vuvu a esfregar/limpar a carpete, o ritual do corpo nu, das mulheres novas, do erotismo declarado mas não gratuito. Vai e vem é um filme auto – reflexivo, genial e puro.
Esteticamente João César Monteiro só tem algo para mostrar, e esse algo passa por aquilo que ele é, vai e vem é o desflorar da magia de uma pessoa nobre, humana e conhecedora do mundo que o rodeava e do mundo que ele mesmo transportava.
João César Monteiro entregou um legado ao Homem, esse legado é a força do saber ser, do saber estar, do poder interior e sapiencial que transforma o homem e que o molda. Vai e Vem é um aviso moderno e que vai perdurar.
Guilherme L. L. Castanheira - 3º Ano de Filosofia - UBI - Trabalho realizado para a disciplina de Estética.

3 comentários:

angelo disse...

Assusta-me saber que realmente estudaste Kant...sem malícia, adorei este texto.

Alice disse...

Belíssimo texto, a exceptuar Kant que não o favorece.
Cumprimentos

Anónimo disse...

Muito bom. Joao luis. Um abraco irmao